
Amigas Pra Valer
Robin Jones Gunn
Serie Cris 7


Um passeio a 1 estao de esqui, briguinhas com a melhor amiga que quase levam ao fim da amizade e a chegada de 1 pacote misterioso.Cada 1 desses acontecimentos
ajuda Cris a entender melhor o que leva 2 pessoas a serem amigas pra valer. No incio do passeio tudo  muito divertido. Cris e Katie tm motivos de sobra para rir, 
pois enfrentam muitas situaes engraadas. Mas nem tudo acaba em risos. Cris  bem recebida na "panelinha" da turma, enquanto Katie tenta desmascarar algumas meninas 
do grupo que esto agindo errado, mas no consegue o apoio de Cris. 
Ser que Cris e Katie conseguiro recuperar a amizade? Cris saber escolher entre os novos amigos e as amizades mais antigas?

Editora  Betania Digitalizao: deisemat
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Um Raio do Cu
1
      - Atravs dos anos, muitas pessoas tm dado suas opinies sobre amizade. Quero que esta classe trabalhe com base na apostila que distribu, e escrevam uma 
redao de trs pginas. Comecem com a frase "Uma amizade verdadeira ..." Podem usar o resto do tempo desta aula para comear o trabalho. Alguma pergunta?
      Cris Miller, de dezesseis anos, correu a vista em torno da classe, e notou que sua amiga Katie tinha levantado a mo.
      - Podemos usar algumas das citaes dessa lista? perguntou Katie, agitando os cabelos ruivos enquanto virava a cabea.
      -  claro que sim. Agora, nada de conversa. Podem trabalhar no projeto.
      Cris ajustou suas pernas compridas sob a carteira e olhou a apostila. A pgina estava cheia de dizeres de gente famosa, como Constantino e Aristteles. Sorriu 
quando leu o que Charles Dickens tinha dito sobre amizades: "Amigos? Sim, por favor!"
      Pegou uma folha de papel em branco e escreveu em cima: Uma amizade verdadeira ...
      Veio-lhe  mente apenas uma palavra: Ted.
      No era exatamente o que estava procurando. Cris afastou a idia e ralhou consigo mesma.
      Vamos l. Voc tem um monto de amigos. O que est fazendo, pensando no Ted? Ele nem faz parte da sua vida mais. Pense, pense, pense! O que  uma amizade verdadeira?
      Comeou a escrever: "Amigo verdadeiro  aquele que est do nosso lado e..." Ted, repetiu mentalmente. "... e sempre v o melhor em ns.  algum que gosta 
da gente, mesmo quando no gostamos muito de ns mesmos."
      Ento, sem querer, escreveu: "Meu amigo de verdade  o Ted Spencer."
      Pronto. Ela tinha confessado.
      Escrevendo isso, reconhecia abertamente que o Ted era seu verdadeiro amigo.
      O que foi mesmo que o Ted dissera quase um ano atrs, quando colocara no seu brao a pulseira de chapinha com a inscrio "Para Sempre"? "Ofereo minha amizade. 
Prometo a voc que  amizade para sempre."
      Cris se lembrou de que ele tinha confirmado essa declarao dois meses atrs. Era cedo, de manh, na praia deserta. Na noite anterior, sem querer, ela tinha 
concordado em namorar o Rick Doyle. E no dia seguinte, l estava ela, numa madrugada nevoenta da Califrnia, tentando explicar ao Ted. Tentou devolver-lhe a pulseira, 
mas ele no aceitou.
      "No importa o que acontea", disse ele. "Seremos amigos para sempre."
      Ento comunicou que estava de partida para o Hava, onde iria tentar entrar na equipe do campeonato mundial de surfe. Ela no tivera notcias dele desde ento.
      Cris desenhou um corao bem pequenino no canto do papel e deixou as lembranas do Ted encherem sua mente. Da a pouco, as margens estavam cheias de desenhos 
de uma bicicleta para duas pessoas, uma cesta de piquenique com gaivotas em volta, um buque de cravos, uma velha kombi Volkswagen, e, descendo o lado direito da 
pgina, uma cachoeira com uma ponte em cima. A estridente sineta, que anunciava o final da aula, trouxe-a de volta ao presente. Fechando o caderno, Cris agarrou 
os livros e parou  porta, esperando a Katie.
      - Voc terminou a sua? perguntou Katie, os olhos verdes faiscando como se tivesse um segredo importante.
      - Na verdade, no, respondeu Cris, puxando para trs sua franja castanho-claro.
      Estava deixando o cabelo crescer, e j entrava naquela fase de deixar louca, de to comprida e desajeitada.
      - E voc, conseguiu? indagou  amiga.
      - Quase, respondeu Katie ao descerem pelo corredor barulhento. Sobre quem voc escreveu?
      - Bem, ainda no decidi. Acho que vou ter de continuar durante o final de semana.
      - Escrevi sobre a pessoa que considero o amigo mais verdadeiro do mundo todo, falou Katie com os olhos brilhantes. Quero que voc leia, mas s depois que eu 
acabar.
      De repente, Cris sentiu-se muito mal. Parece que a Katie escreveu sobre mim! Como se eu fosse sua melhor amiga. Katie tem sido uma rocha de proteo, uma amiga 
de verdade, e eu nem me liguei.
      No almoo as garotas se encontraram no lugar de sempre, perto das mesas de piquenique, no lado de fora. Tempo suficiente para Cris bolar um plano. Queria fazer 
alguma coisa que deixasse Katie saber o quanto gostava dela.
      - Katie, vou lhe fazer uma pergunta e quero uma resposta sincera.
      - Est bem; desembuche!
      - Quero saber o que voc gostaria que fizssemos juntas, s eu e voc.
      - Que  que voc quer dizer?
      - O que  que voc tem vontade de fazer? Gostaria de fazer compras ou o qu?  s dizer.
      - Parece que alguma coisa est errada, Cris. Ns sempre estamos fazendo as coisas juntas. Por que precisamos fazer planos especiais para alguma coisa?
      Cris respirou fundo e enfiou o resto do seu sanduche de volta na sacola de lanche. No pensara que seria assim to complicado.
      - Posso ser sincera com voc?
      - No, quero que voc minta pra mim, respondeu Katie com deboche.
      Em seguida, dando-lhe um empurrozinho no ombro, disse:
      - Brincadeirinha! O que deixou voc to sria assim? Est me assustando!
      - Katie, voc tem sido uma amiga de verdade pra mim. Sinto que eu no tenho sido to boa assim. Voc  a amiga mais legal que j tive.
      - Legal?
      - , voc sabe. Que nem no ano passado, quando meus tios me levaram a Palm Springs. Voc no pde ir por causa do jogo de futebol. Voc foi to legal sobre 
isso...
      - Mas... interrompeu Katie.
      Cris, porm, continuou, no dando chance  amiga de discordar.
      - Depois, nas frias de vero, quando fui a Maui. Voc sabe que eu queria lev-la, mas tive de levar a Paula, porque ela estava aqui de visita naquela semana. 
Minha tia organizou tudo, e no tive como dizer quem eu queria que fosse junto.
      - Eu sei, Cris. No precisa explicar.
      -  isso que quero dizer! Voc sempre me deu uma fora. Foi legal sobre meus passeios a Palm Springs e Maui. At mesmo quando a Paula foi grossa com voc...
      - Cris, voc est dando a impresso de que eu fui uma espcie de herona! No foi assim, no. Eu estava morrendo de inveja de no poder ir com vocs.
      - Mas no parecia.  isso que estou dizendo. Voc sempre me apoiou. Sempre.
      - Bem, quase sempre. Se voc se lembra, no apoiei quando comeou a namorar o Rick.
      - Sim, apoiou. S que no tinha uma opinio muito boa dele.
      - Ainda no tenho. Mas no precisava dizer a voc tudo que eu pensava dele. Voc resolveu a situao muito bem, sem que eu fizesse um monte de comentrios 
negativos.
      - No; foi bom voc me ter dito aquelas coisas. Tinha de ouvir a sua opinio. E, como j lhe disse e provavelmente terei de dizer umas mil vezes, voc tinha 
razo, Katie. Namorar o Rick foi um grande erro.
      - E como eu j lhe disse mil vezes, sair com o Rick no era o problema. Namor-lo foi... Bem, se quer minha opinio sincera, foi a coisa mais boba que voc 
fez em toda a sua vida.
       Cris riu diante da sinceridade da amiga.
      - , parece que certas coisas a gente s aprende quebrando a cara. Sabe, ainda me sinto machucada quando penso nele.
      - Por qu? Porque ele era um panaca e tratava voc que nem lama?
      - No, o Rick no me tratou mal, voc sabe disse.
      - Certo. Ele s roubou a pulseira que o Ted lhe deu, vendeu-a para um joalheiro, e agora voc teve de compr-la de volta pagando prestaes at o Dia de Ao 
de Graas*. Como sou burra! falou Katie e deu um tapa na testa. Acho que  assim que toda garota sonha que o namorado vai trat-la. S me falta agora atingir esse 
nvel de maturidade que leva a entender relacionamentos assim to profundos, amveis, emocionalmente enriquecedores.
      * Dia de Ao de Graas, Thanksgiving: a quarta quinta-feira de novembro.  um dos principais feriados americanos.  quando celebram a sobrevivncia dos primeiros 
colonos inleses na Nova Inglaterra e do graas a Deus por todas as bnos. (N. da T.)
      - Est bem, Katie. Voc tem razo. O Rick foi uma espcie de...
      - Panaca de primeira categoria, totalmente besta, completou a outra.
      - , talvez a gente possa colocar a coisa nesses termos. Mas no era sempre assim. H nele um lado carinhoso tambm. No estou dizendo que quero sair com ele 
de novo, mas no sinto que meu relacionamento com o Rick tenha se desfeito.
      - Voc mandou ele desaparecer. Que mais existe ainda pra desfazer?
      - No d pra explicar. Nem sei se eu entendo. Quero que ele compreenda por que terminei com ele. Um dia desses quero sentar-me com ele e explicar tudo.
      - Quer dizer, do jeito que voc conversou sobre as coisas com o Ted naquela madrugada, na praia? Isto , voc pode dizer sinceramente que seu relacionamento 
com o Ted acabou e est resolvido?
      Cris abanou a cabea, sentindo o cabelo sobre os ombros enquanto abaixava os olhos. Lgrimas escorreram inesperadamente.
      - No, sussurrou. No acabei nada com o Ted. Penso nele o tempo todo.
      - E ento? Por que no escreve pra ele? Mande um carto. Um daqueles engraados. Voc me disse que na semana passada o seu tio lhe deu o endereo dele. O que 
 que est esperando?
      - No sei, respondeu Cris, piscando os olhos para deter o pranto. Vai ver que estou esperando um raio do cu.
      - Ento aqui vai, disse Katie, batendo na cabea de sua amiga com um sanduche embrulhado em papel alumnio. Considere isso um raio do cu, e esta  a mensagem: 
"Fazei o que deveis! Escrevei ao Ted!"
      Cris sorriu, seus olhos azul-esverdeados fitando os de Katie.
      - J que  assim que voc pensa, eu irei. Sairei e comprarei um carto e o enviarei ao Ted hoje mesmo. 
      Katie sorriu em aprovao e comentou:
      - Sabe, de vez em quando uma batida na cabea com um sanduche parece lhe fazer bem. Me lembre que eu devo fazer isso a cada cinquenta mil quilmetros.
      Foi s na aula de Espanhol que Cris se lembrou de que a Katie no tinha respondido  sua primeira pergunta. No lhe dissera o que queria que as duas fizessem 
juntas.
      Durante as frias, as nicas horas que passaram juntas foram na igreja. Depois do incio das aulas, Cris comeara a trabalhar e ficava sempre ocupada nos finais 
de semana.
      Na poca em que Cris comeara a namorar o Rick, Katie havia prometido uma "festa da camisola" na sua casa, mas a amiga no tivera nenhum final de semana livre, 
pois trabalhava todas as sextas-feiras e saa com o Rick aos sbados aps o trabalho. Agora que o Rick estava fora do pedao, Cris pensou que talvez pudesse ajudar 
a Katie a reunir as garotas e planejar uma festa, como no ano passado.
      Cris dirigiu diretamente da escola para o shopping, onde comeava a trabalhar s quatro. Seu patro, Jon, recebeu-a com um largo sorriso.
      - Adivinhe o que aconteceu! falou ele.
      Tinha o cabelo comprido amarrado atrs num rabo-de-cavalo e estava, como de costume, de jeans e camiseta. Cris no notou nada diferente no Jon. Devia ser alguma 
coisa na loja. Ela olhou  sua volta, mas no viu diferena alguma.
      - Desisto. No sei o que pode ser.
      - Vendi a jibia hoje cedo, replicou Jon, dando um largo sorriso.
      A simples meno do animal dava arrepios na Cris. Nunca esqueceria a noite em que a jibia de cinco metros tinha escapado da gaiola e sara a passear pelo 
shopping.
      - Voc parece contente por t-la vendido, disse Cris. A Beverly me disse que ela estava aqui h sculos. Achei que nunca fosse vend-la.
      - . Essa cobra j estava aqui havia muito tempo, no porque gostasse dela, mas porque ningum queria compr-la. Hoje de manh um cara de Fallbrook chegou 
e pagou o preo total. Agora ela tem um novo lar, e eu estou felicssimo, comentou Jon, pegando a prancheta de trs do balco.
      - Faz tempo que estou pretendendo lhe perguntar uma coisa, continuou ele. Voc est contente com o seu horrio, ou quer que eu mude para voc poder passar 
mais tempo com o namorado?
      Cris sentiu o rosto enrubescer.
      - Ah no! Meu horrio est timo. No precisa mudar nada. Verdade.
      Jon olhou-a direto nos olhos com o mesmo jeito de um mdico que examina a garganta de um paciente. Ento, como quem descobriu o que estava querendo saber, 
pousou de novo a vista na prancheta e disse:
      - Que pena!
      Cris sentiu-se confusa.
      - Voc acha uma pena eu no querer mudar o horrio? Posso mudar ou trocar com outra pessoa, se precisar.
      - No; seu horrio est timo para mim.  uma pena que voc e o... - como era mesmo o nome dele? - tenham terminado.
      - Rick, replicou, e assim que disse o nome, sentiu como se tivesse mordido uma framboesa azeda. O nome dele  Rick. Faz cerca de uma semana que acabamos tudo. 
Mas est tudo bem. Verdade. Somos apenas amigos.
      Jon olhou-a mais uma vez nos olhos. Depois, com um largo sorriso, fez barulho com o clipe da prancheta, enfiou a caneta atrs da orelha, e dirigiu-se para 
o fundo da loja.
      - , parece que chega um momento que a gente tem de dizer adeus. Nem sempre  fcil, mas a gente tem de soltar a velha jibia, deixar que outra pessoa cuide 
dela.
      Cris estava prestes a defender o Rick, quando Jon voltou a encar-la e disse:
      - Voc sabe que estou me referindo  cobra, no sabe? Aquela velha jibia.
      - Certo. A cobra, naturalmente. Claro que sei disso.
      Colocou a bolsa por trs do balco e foi postar-se atrs da caixa registradora.
      Rapazes. Quem precisa deles? Eu  que no!
      Comeou a arrumar o balco, resolvida a concentrar-se no trabalho.
      Eu mostro ao Jon e  Katie e a todo mundo que no preciso de rapaz nenhum na minha vida. E, suspirando fundo, murmurou: Agora, se ao menos conseguir convencer-me 
a mim mesma, estar tudo bem.

O Rei das Devolues
2
      
      - Com licena, disse  Cris o fregus da caixa registradora.
      Ela j estava trabalhando havia mais de uma hora, mas esse era o primeiro fregus que falava com ela. Os outros tinham apenas correspondido ao seu sorriso 
e cumprimentando com resmungos e murmrios.
      - Poderia me dizer quando vocs vo receber mais mistura de paino? indagou ele. Parece que acabou; a caixa est vazia.
      - No tenho certeza, mas vou chamar o gerente. 
      Cris apertou um boto vermelho debaixo do balco, e Jon logo apareceu, correndo a passos curtos.
      Enquanto Cris explicava ao Jon que o paino havia acabado, viu com o canto do olho a Katie entrando na loja.
      - Uma nova remessa chega na segunda-feira, disse Jon ao cliente. O senhor quer que telefonemos quando tiver chegado? 
      - No, no precisa me ligar quando chegar, no. O melhor  vocs manterem um estoque suficiente para no dar desculpas esfarrapadas e me fazer ficar sem rao 
para os meus pssaros. Que espcie de gerente  voc? No consegue nem manter paino em estoque!
      Com isso o homem saiu bufando da loja.
      - Que  que h com aquele cara? Quem ele acha que ? perguntou Cris.
      - Ah, eu no lhe falei?  um dos nossos melhores fregueses.
      - Puxa! E como sero os piores?
      - Sabe o que dizem: "O fregus sempre tem razo."  melhor no ligar, deixar rolar e ir em frente.
      - Mas, Jon, ele foi grosseiro com voc e disse um bocado de coisas ruins!
      - Apenas semente de ervas daninhas. Talvez estivesse querendo jogar algumas no meu jardim. No as quero.
      - E ento, o que  que voc faz? Finge no perceber? Jon olhou-a como se Cris fosse bem criana e ainda tivesse muito que aprender.
      - Se eu ignorar as sementes de ervas daninhas, elas brotam e crescem, no  mesmo?
      - .
      - E  claro que no vou adub-las e nem reg-las para me divertir e ver como so depois que crescerem. Cris concordou, acenando com a cabea.
      - Ento eu as cato e jogo fora, disse Jon, usando os gestos apropriados. As ervas daninhas vo para o monte de lixo; no para o meu jardim.
      Cris ficou imaginando como o Jon parecia simples. Nunca imaginaria que seu patro, o gerente de uma loja de animais, tivesse tanta filosofia de vida.
      Olhando para o relgio, Jon disse:
      - Est na hora do seu intervalo. Pode tirar enquanto sua amiga est aqui.
      - Obrigada. A propsito, o nome dela  Katie. Tirando a bolsa de trs do balco e laando-a ao ombro, Cris gritou para a amiga:
      - Tudo bem, Katie. Ele j descobriu voc. No precisa mais fingir ser freguesa.
      Katie estava atrs de um mostrurio de livros de bolso. S apareciam seus olhos verdes acima do livro que ela examinava: Como treinar seu coelho a viver solto 
em casa em apenas vinte dias.
      - Prazer em conhec-la, Katie, falou Jon enquanto as garotas saam da loja.
      - O prazer  meu, disse Katie por sobre o ombro. 
      Rindo-se, Cris perguntou:
      - Voc viu aquele cara que entrou logo antes de voc e pediu paino? Viu a grosseria dele?
      - Acho que ele devia estar com algum problema. Por aqui, disse Katie, puxando o brao da amiga. Vamos  papelaria comprar um carto para o Ted.
      - Puxa! Pra voc e o Jon, minha vida  um livro aberto! Entraram na loja e foram  fileira de cartes.
      - Voc me deixa escolher o carto, est bem? falou Cris.
      - Claro, concordou a outra, parando em frente dos cartes humorsticos. S estou aqui pra oferecer o meu apoio.
      - E sua opinio.
      - . Minha opinio. Mas s se voc a quiser, disse ela, pegando um carto e lendo seus dizeres.
      - Olha aqui! disse quase gritando, toda entusiasmada.  estee!  perfeito. Terminou a busca. Encontrei o carto perfeito! Leia.
      - Katie! ralhou a amiga.
      - Eu sei, eu sei. Voc s queria minha opinio. Bem, na minha opinio este  perfeito. Voc no disse que o Ted tem uma prancha de surfe alaranjada?
      Cris tirou o carto da mo de Katie e examinou-o de perto. Na frente havia um surfista solitrio, numa prancha alaranjada, na crista de uma onda enorme, gritando: 
"O surfe est na onda!" Todos os outros surfistas em caricatura na praia estavam agarrando suas pranchas e subindo em cima um do outro para tentar acompanhar aquele 
surfista.
      O carto se abria com a inscrio: "E ento, o que rola no seu canto do mundo?"
      - Bem, continuou Katie, para um cara que deixou a civilizao pra surfar o inverno todo na praia de Oahu, no  o carto perfeito? Acredita? Tem at uma prancha 
da cor da do Ted!  coincidncia ou  Deus?
      - Est certo, replicou Cris, rindo. Voc me convenceu. Este  o carto perfeito para o Ted. Vamos compr-lo, e eu lhe pago um sorvete de iogurte na sorveteria 
ao lado. Me lembra de lhe perguntar uma coisa.
      Alguns minutos depois, as duas tomavam um iogurte gelado, caminhando de volta para a loja de animais.
      - E ento, o que voc queria me perguntar?
      - Voc no me respondeu o que perguntei no almoo, l na escola. Sobre o que queria fazer. Pensei que talvez pudssemos organizar uma festa da camisola que 
nem a do ano passado. Sei que j  outubro, mas ainda podamos fazer de conta que  festa de incio das aulas.
      Katie disse "no", abanando a cabea.
      - J tentei trs vezes organizar uma festa dessas, mas simplesmente no vai dar. Vai ver que  porque crescemos. Talvez a gente j seja muito grande para esse 
tipo de brincadeira, falou pegando mais uma colherada de iogurte. Sabe, a primeira festa da camisola de que participei, eu estava na sexta srie. A maioria das garotas 
no se interessa mais.
      - Por que no?
      - Algumas j mudaram daqui. Outras esto de namorado ou trabalham nas horas que no estudam. Ningum queria. S eu.
      - E eu, disse Cris. Confesso que eu estava preocupada com o Rick, com o trabalho, o castigo e tudo o mais quando as aulas comearam, mas agora estou querendo 
a festa. Mesmo se formos s ns duas.
      Os olhos de Katie brilhavam.
      -  mesmo? Quando? Pra mim qualquer dia est bom.
      - Que tal amanh? D pra planejar assim to depressa?
      - Claro! Posso ligar pra algumas garotas e comprar umas fritas, balinhas de chocolate e papel higinico. A que horas voc poderia chegar?
      - Saio do trabalho s seis. Se meus pais concordarem, posso ir direto pra sua casa.
      - Perfeito! Vou pra casa arranjar um espao no freezer. Sabe, n? Esses preparativos todos para a festa...
      - E por que precisa de espao no freezer?
      -  tradicional a gente congelar as roupas de baixo de algum. De quem foi que fizemos no ano passado? Procuramos no pegar a mesma pessoa duas vezes seguidas.
      Cris sorriu.
      - No me lembro. Mas faz de conta que fui eu, para no acontecer comigo este ano, t bem?
      Katie caiu na gargalhada, e Cris sabia que sua amiga estava animada com a ideia da festa. Sentia-se feliz porque, afinal, iam fazer o que planejaram. Mas tambm 
fez com que Cris se sentisse culpada pelas muitas vezes que tinha protelado os planos de Katie no passado.
      - Eu encomendo a pizza s seis, para que esteja l quando voc chegar. Vai ser o mximo!
      No dia seguinte  tarde, enquanto Cris trabalhava, Katie ligou para ela, falando dos planos. Cris estava nos fundos, marcando os preos nas latas de rao 
para peixes, o que lhe permitiu continuar trabalhando enquanto conversava.
      - Estou com o saco de dormir e tudo mais dentro do carro, disse Cris. Meus pais foram super legais comigo e me deixaram ficar com o carro a noite toda. S 
preciso voltar pra casa amanh depois do culto. S que eles no querem que eu dirija  noite, se sairmos "empapelando"* as casas. S posso dirigir at sua casa e 
amanh de manh para a igreja.
      *Costume e brincadeira de jovens americanos de enrolar papel higinico no jardim de algum amigo ou conhecido, sem que esse perceba. Geralmente a "vtima" s 
descobre a bricadeira depois que eles j foram embora. (N. da T.)
      - Tudo bem, disse Katie. Liguei para umas quinze colegas. At agora, s trs confirmaram, mas nunca se sabe. Pode ser que mais alguma aparea depois.
      - Claro, disse Cris, querendo parecer otimista. Nunca se sabe quem vem, no  mesmo? Quem confirmou definitivamente?
      - Eu, voc e a Teri.
      Cris sentiu-se desanimar quando percebeu que ela e Katie eram duas das trs mencionadas. Katie merecia coisa melhor. Merecia uma casa cheia de amigas que a 
valorizassem como a amiga leal e verdadeira que era.
      - A Teri vem? Verdade? Que timo! falou Cris, tentando disfarar a decepo. 
      Ela tinha se candidatado a lder de torcida com a Teri alguns meses antes, e desde aquela poca queria ter a oportunidade de conhec-la melhor.
      - Ela vai participar s de uma parte. Provavelmente no vai poder passar a noite toda. Sabe, n? O pai dela  pastor. No gosta que os filhos fiquem acordados 
at tarde no sbado, porque uma vez o irmo da Teri ficou e, no domingo de manh, dormiu sentado bem no banco de frente da igreja. A ele caiu no cho ou coisa parecida, 
dando o maior vexame. De qualquer maneira, a Teri disse que agora na famlia dela, no sbado, todos tm de estar na cama at as onze da noite.
      - Ai! exclamou Cris.
      - O que foi?
      - Estava tentando abrir esta caixa e apertei o dedo. No! falou Cris, comeando a rir. Katie, voc no vai acreditar!
      - O qu?
      - Adivinhe o que tem na caixa?
      - O qu?
      - Paino!  uma caixa enorme de paino, mas algum escreveu "rao para peixes". Imagine s: podamos ter resolvido a contento aquele caso de ontem. Tenho 
de contar essa para o Jon! A gente se v l pelas seis e meia. Vamos nos divertir  bea! Voc vai ver!
      Cris desligou o telefone e foi procurar o Jon. Sua colega de trabalho, Beverly, estava junto  caixa registradora, atendendo um garoto que contava moedas, 
verificando se tinha o suficiente para comprar um bauzinho de plstico para o seu aqurio.
      - O Jon est por a?
      - Deve voltar j. Foi devolver uma camisa. As pulseiras de prata da Beverly tilintavam no balco enquanto ela contava as moedas.
      - Ele no devolveu uma camisa na semana passada?
      - Acho que era uma cala. Voc ainda no notou como o Jon faz compras? Ele compra primeiro, depois resolve se gostou.  o rei das devolues. Todas as lojas 
aqui do shopping j decoraram os nmeros dos cartes de crdito dele, de to acostumados que esto. Primeiro, quando ele compra as coisas, e em seguida, quando as 
devolve, explicou Beverly.
      Em seguida virou-se para o menino e disse:
      - Parece que faltam vinte e sete centavos. O rostinho do menino pareceu murchar.
      - Eu s tenho isso! disse.
      - Toma aqui, falou Cris, pegando sua bolsa. Tenho certeza que tenho os vinte e sete centavos. Pode dar pra ele, Beverly. Registre a compra.
      - Obrigado, disse o menino, dando um largo sorriso para Cris. E, se eu mudar de idia, posso devolver? Tanto Beverly quanto Cris riram e Beverly disse:
      - Se voc for devolver, tem de falar com o Jon. Ele  o rei das devolues por aqui.
      Naquele instante Jon entrou com uma sacola de compras em cada mo.
      - Pensei que voc tinha ido devolver alguma coisa, brincou Beverly.
      - E fui. Agora, estou tentando resolver o que vou dar a minha irm de presente de aniversrio; um vaso (e levantou a mo direita) ou, um perfume, e ergueu 
o da esquerda.
      Olhou firme as suas funcionrias, e perguntou:
      - O que vocs acham que seria melhor?
      No instante em que Cris respondeu "o perfume", Beverly disse: "o vaso".
      - Vocs duas ajudam muito! comentou Jon, dirigindo-se para o fundo da loja. Ainda bem que s vou pr no correio na  prxima sexta-feira. At l vou decidir 
e a devolvo o outro.
      - Eu no lhe disse? indagou Beverly, jogando para trs sua comprida trana, que descia pelas costas. O rei das devolues.
      Naquele instante, Cris avistou um rapaz l fora, no shopping. Parecia-se muito com o Rick. Dirigindo-se  vitrine da frente, ela fingiu entreter-se com o trinco 
da gaiola dos cachorros enquanto vasculhava a rea com os olhos. Mas no viu o Rick em lugar algum.
      Talvez eu tenha meu prprio rei das devolues voltando para a minha vida. O Rick disse que s voltaria da universidade no feriado de Ao de  Graas, mas 
no me surpreenderia se ele resolvesse me vigiar em segredo.
      Soltando o trinco, percebeu que suas mos tremiam. Que  que h comigo? Eu no devia me sentir assim sobre a possibilidade de ver o Rick. Vivemos na mesma 
cidade, e  mais que normal que nos encontremos uma ou outra vez, por acaso. No tenho do que me arrepender, nem o que esconder.
      Cris fechou o punho. Agora estava zangada. Rick exercia um estranho poder sobre ela desde que o ficou conhecendo, mais de um ano atrs. Na verdade, fora na 
noite da festa da camisola da Katie. As garotas tinham "empapelado" a casa dele e ele descera a rua, correndo atrs da Cris. Durante um ano inteiro ele a perseguira. 
Ela, finalmente, acabara namorando com ele. Mas depois o namoro terminou. Contudo era bvio que ao pensar nele sentia um aperto no estmago.
      Por que sou assim? Ser que isso  normal? Detesto essa sensao! Nunca sei quando ela vai acontecer, e demora tanto a passar...
      - Cris! gritou Jon dos fundos. O que  que h com essa caixa de paino?
      Da a pouco Cris esquecia o Rick. Quando foi  sala dos fundos dar explicaes ao Jon, as batidas do seu corao voltaram ao normal em questo de minutos.
      Mas naquela noite, depois do trabalho, a sensao das mos suadas voltou em cheio.

Passe os Chocolates!
3
      
      - Quero pagar uma prestao da pulseira que vocs esto guardando pra mim, disse Cris  vendedora da joalheria. Todos os sbados ela ia l aps o trabalho, 
pagar uma  prestao da pulseira do Ted, que o Rick tinha usado como entrada para uma pulseira que ele comprara para ela.
      - Meu nome  Cristina Miller.
      - Um momento, respondeu a jovem, uma loira alta. 
      Foi at o fundo da loja, onde conversou em voz baixa com o gerente. Este ergueu os olhos e, reconhecendo Cris, pegou uma caixa e foi at o balco.
      - Cris Miller! disse o homem, todo sorridente. Como vai voc? 
      - Bem, obrigada! Vim fazer o pagamento semanal. 
      Ela no entendia por que ele estava to amvel, sorrindo para ela daquele jeito.
      - No precisa.  toda sua. Est inteiramente paga.
      - Eeeh! Eu no entendi. Ainda tenho de pagar mais cinco prestaes.
      - No, senhora, disse o joalheiro, colocando a caixa alongada na mo de Cris. Uma certa pessoa, que deseja permanecer annima, veio e pagou tudo. Pode levar 
hoje mesmo.
      - Quem? Quem  essa pessoa?
      - Sinto muito. No posso lhe dizer. Ele deseja permanecer annimo.
      - Ele? sussurrou.
      No deve ser o Rick. Ele nunca faria isso. Ou faria? Ele sabe o quanto fiquei chateada porque ele me roubou a pulseira. Ser possvel que devolveu a de prata 
que tinha me dado para eu poder levar de volta a de ouro?
      - Tudo bem, continuou o homem. Pode coloc-la no pulso, Eu poli hoje  tarde. De graa.  uma linda pulseira.
      Cris sentiu como se fosse um momento quase sagrado. Na verdade, era um momento que ela no desejava compartilhar com o joalheiro.
      - Muito obrigada, disse, guardando a caixa na bolsa sem abri-la. Fico muito grata mesmo, falou e afastou-se depressa para no se sentir obrigada a abrir a 
caixa na frente dele.
      Voltou correndo  loja de animais, de onde tencionava sair pela porta dos fundos para o estacionamento. Jon estava sentado  mesinha, na sala dos fundos, examinando 
a correspondncia do dia.
      - Boa noite! disse ao passar por ele. At a prxima semana.
      - Contente por estar com a pulseira de volta? perguntou Jon, sem levantar os olhos da correspondncia. 
      Cris parou surpresa.
      - Como soube?
      Ento ela compreendeu que Jon sabia que ela estava pagando prestaes da pulseira porque o gerente da joalheria tinha telefonado para ele para verificar o 
seu crdito.
      - No foi voc que pagou, foi? Porque se foi, bem, eu ia pagar at o fim. Vou repor-lhe o dinheiro.
      Jon olhou para ela com expresso de quem no entendeu uma s palavra.
      - Pode descontar do meu salrio, srio. Toda semana, at a quitao do dbito. Aprecio muito seu gesto, mas voc no precisava fazer isso.
      - Fazer o qu? indagou Jon, parecendo divertir-se com a tagarelice de sua funcionria.
      - Ento no foi voc que pagou a minha pulseira? Ento como  que sabia?
      Abanando a cabea, Jon sorriu:
      - Eu vi a ponta do estojo em sua bolsa, quando entrou aqui. Como eu sabia que estava pagando uma pulseira no joalheiro, calculei que fosse essa a.
      - Ah!
      - Divirta-se hoje na casa da Katie, falou Jon e voltou s contas.
      - Vou me divertir. Obrigada.
      Cris pegou a chave na bolsa e caminhou em direo ao carro. 
      Espera a! Como  que o Jon sabia que eu ia passar a noite na casa da Katie?
      Concluindo que seu chefe trabalhava de agente secreto nas horas vagas, Cris abriu a porta do carrinho azul que compartilhava com sua me e sentou-se. Dentro 
do carro aquecido, segurou solenemente a caixa da pulseira antes de abri-la. No momento, no importava quem pagara o saldo devedor. A pulseira de chapinha de ouro 
estava novamente em suas mos.
      Pai, sussurrou. Muito obrigada. Obrigada por permitir que eu conseguisse de volta a minha pulseira, e obrigada pelo Ted. Esteja com ele  l no Hava, protegendo-o 
em tudo. E, por favor, conserta nosso relacionamento, para que voltemos a ser bons amigos de novo. Obrigada, porque sempre me escutas e te importas com todos os 
detalhes da minha vida. Eu te amo, Senhor.
      Abrindo os olhos, levantou a tampa do estojo. No momento que viu a pulseira, perfeita, rutilante, com "Para Sempre" gravado nela, Cris encheu-se de jbilo.
      Katie quase no acreditou na histria quando, minutos depois, Cris estendeu o brao e exibiu-lhe a pulseira. 
      - Voc acha que foi o Rick que pagou? 
      - No; duvido. Suspeito que talvez tenha sido o meu patro, Jon. Ele parece o tipo de pessoa capaz de fazer uma coisa dessas em segredo.
      - Seja l quem foi,  uma coisa totalmente de Deus. Espero que voc nunca mais tire essa pulseira. 
      - E no pretendo mesmo! E a Teri? A que horas ela chega? 
      - Ela ligou uma hora atrs. No vem. A me dela est doente e ela achou melhor ficar em casa para ajudar. Parece que somos s ns duas, falou Katie, apontando 
para a mesa da cozinha, abarrotada de petiscos.
      - Acha que temos bastante para comer? indagou.
      - Isso no  s pra ns, ?!!
      - Minha me disse que os meus irmos comem o que sobrar, mas eles saram com papai e s chegam tarde. Vamos l. Pegue uma fatia de pizza e um refrigerante. 
Podemos comer na sala. Aluguei uns filmes.
      Katie parecia contente por estarem juntas, mas Cris sabia que sua amiga estava decepcionada por serem s as duas.
      Nas primeiras duas horas, elas se recostaram no sof, comendo e assistindo a um velho filme Disney sobre um "Fusca" que tinha personalidade prpria. Era meio 
engraado, mas na verdade um pouco chato.
      Quando acabou o filme, Cris sentiu mais uma vez a tristeza na voz da Katie, quando perguntou:
      - Quer ver outro filme ou vamos jogar alguma coisa?
      - Tanto faz. O que voc quer fazer?
      - T com fome? Ainda tem muita coisa pra comer.
      Cris encheu as bochechas de ar e deu tapinhas na barriga:
      - Estou to cheia, que no caberia nem mesmo uma batatinha, se voc me obrigasse.
      - Podamos experimentar uns penteados novos.
      - Sem essa! Nem olhe o meu cabelo. Desde que acabou aquele permanente velho e deixei as franjas crescerem, me sinto igual a uma boneca de palha. Parece que 
meu cabelo no tem jeito. No sei mais o que fazer com ele.
      - Eu gosto como ele est agora. Fica bem pra voc. Natural. No me leve a mal, mas quando estava curto, com aquelas franjas espetadas, no combinava com voc, 
sabe, n?
      - Eu j tive um cabelo bem comprido, quase na cintura.
      - E por que cortou?
      - Minha tia Marta me convenceu, dois anos atrs, quando vim do Wisconsin. Ela me disse que eu precisava adquirir um jeito mais da Califrnia.
      Katie virou a cabea de Cris de lado, examinando o cabelo da amiga.
      - ; acho que gosto mais do seu cabelo comprido e sem franja. Voc no disse uma vez que o Ted gostava dele longo?
      Cris sorriu, concordando. A lembrana do comentrio do Ted lhe agradou.
      - E por falar em Ted, voc j lhe mandou o carto?
      - Mandei hoje cedo, l do trabalho.
      - O que  que escreveu dentro? Quer dizer, s se voc quiser me contar. Se for pessoal demais, tudo bem, eu entendo.
      - Tem nada no. No era nada de pessoal. No escrevi muito. Eu lhe falei que estava pensando nele e orando por ele, contei do meu emprego na loja de animais. 
Coisas desse tipo. Desejei-lhe xito na competio de surfe. Ele sempre est citando versculos da Bblia, ento, eu mandei-lhe um versculo de que gosto. S escrevi 
a referncia, para ele ter que procurar por si mesmo.
      - Legal.  como mandar uma mensagem num cdigo secreto. Que versculo foi? Ou  segredo? No precisa contar, se no quiser.
      - Claro que no  segredo, nem pessoal demais. Encontrei em Filipenses, que  um dos meus livros prediletos. Tem uma Bblia a? Eu lhe mostro.
      Katie levantou-se e voltou do quarto um instante depois com a Bblia na mo.
      - Aqui, disse Cris, mostrando Filipenses 1.3. Comeando aqui at a primeira parte do versculo 7. 
      Katie leu em voz alta.
       "Dou graas ao meu Deus por tudo que recordo de vs, fazendo sempre, com alegria, splica por todos vs, em todas as minhas oraes, pela vossa cooperao 
no evangelho, desde o primeiro dia at agora. Estou plenamente certo que aquele que comeou boa obra em vs h de completa-la at ao Dia de Cristo Jesus. Alis, 
 justo que eu assim pense de todos vs, porque vos trago no corao..."
      - Cris, que coisa mais romntica!
      - Romntica? indagou Cris, rindo.  um texto bblico!
      - Eu sei, mas essa ltima parte, "vos trago no corao", contm tanta ternura! Quando o Ted ler isso, ele vai largar a prancha de surfe, entrar no primeiro 
avio e vir correndo pra c.
      - Dvido. Espero que quando o Ted ler isso, ele se sinta fortalecido e saiba que eu realmente gosto dele.
      - E que voc o leva no corao.        
      - Pare com isso, Katie! No  s sobre o Ted. Diz "vs" - todos vocs - um monte de vezes. Esses versculos se aplicam  tambm a voc. Voc  minha amiga, 
e dou graas a Deus por voc todo o tempo.
      - Eu tambm agradeo a Deus por voc, Cris. Parece que est cada vez mais difcil encontrar boas amizades.
      Katie fechou a Bblia e colocou-a na mesinha de centro.
      - Sei bem o que est dizendo. Acho que quanto mais as coisas vo mudando, mais temos que nos apegar aos verdadeiros amigos.
      Katie acenou, concordando.
      - Sabe? Sinto muito que isso aqui tenha acabado no sendo uma verdadeira festa da camisola, como as de antes. Vamos pensar em outra coisa que voc e eu podemos 
fazer juntas. O qu voc gostaria muito de fazer? H algum lugar a que tem muita vontade de ir?
      Katie pensou por um momento e disse:
      - Sabe, tem uma coisa que morro de vontade de fazer, mas no queria fazer sozinha. Queria que algum fosse comigo.
      - Eu vou, desde que no seja saltar de pra-quedas.
      - No, no  nada to maluco assim.  esquiar. Sempre tive vontade de esquiar.
      Cris engoliu em seco. Para ela, esquiar estava na mesma categoria de saltar de pra-quedas e todos aqueles outros esportes onde algum se desloca em alta velocidade 
sem controle sobre o prprio corpo.
      Katie olhou para a Cris, nariz sardento enrugado com a expectativa.
      - E ento, o que acha? Podamos entrar para o clube de esqui, na escola, e viajar com eles at o lago Tahoe, no feriado de Ao de Graas. No seria timo? 
Voc perguntou o que eu realmente queria fazer, e esse  um sonho que eu sempre tive.
      Cris sabia que a credibilidade de sua oferta de fortalecer a amizade com a Katie dependia de sua resposta. Estava em seu poder alegrar a amiga ou frustrar 
seu sonho.
      - Ainda tem tempo de entrar no clube de esqui? Eles j no comearam? indagou Cris, adiando um pouco mais sua resposta.
      - Segunda-feira agora  o ltimo dia para inscries. Eles se renem na escola depois das aulas, na classe do Prof. Riley. Fui na semana passada, porque queria 
entrar. Mas no estava a fim de passar um final de semana inteiro na companhia do pessoal que est no clube.
      - Voc no me disse que tinha ido.
      - Pensei que voc no se interessaria. Acho que foi uma idia maluca.
      - No!  uma tima idia. Podemos fazer isso. Podemos entar para o clube de esqui. S que eu nunca esquiei. Eles deixam gente inexperiente entrar?
      - Eu tambm nunca esquiei. Perguntei na semana passada. Disseram que no vale Squaw, onde eles vo, tem instrutores para principiantes como ns. Podamos aprender 
esqui as duas juntas.
      Katie parecia to animada que Cris concordou, embora ainda relutasse.
      - Est bem, disse. Vamos fazer nossa inscrio na segunda-feira..
      - Radical! exclamou Katie, colocando uma tigela de balinhas de chocolate no colo e comeando a jogar uma mo cheia na boca. Voc vai ver. Vai ser uma experincia 
maravilhosa! Finalmente, vamos conseguir fazer uma viagem juntas.
      Criss tentou reprimir seu nervosismo e sua incerteza. Iria fazer isso pela Katie; ento estava tudo certo. No devia ser to covarde com relao a aventuras. 
No havia se sado bem quando dirigira na estrada de Hana, nas frias passadas, no Hava? Claro que  no morrreria s por causa de umas aulas de esqui!
      - E agora, o que voc quer fazer? So s nave e meia. Quer empapelar a casa de algum? Podamos fazer mscaras de beleza de clara de ovo e aveia, talvez. Ou 
assistir E o vento levou.
      - Esse  o outro filme que voc alugou? E nem me disse! Pensei que fosse outra aventura Disney. Adoraria ver. S assisti uma vez e qerdi o final porque dormi. 
Vamos ver, vamos! No estou a fim de "empapelar", e de que adianta fazer tratamento de pele quando estamos nos empanturrando de chocolate e pizza?
      De um salto, Katie colocou o filme no vdeo.
      - Ento, sua escolha para hoje  essa "maratona" desse filme antigo e mais petiscos! Sabia que devia haver uma razo para nos darmos to bem! Temos o mesmo 
gosto em festas da camisola.
      Voltando ao seu cantinho no sof, Katie colocou o saco de dormir sobre as pernas. Virou-se para Cris, que agora estava com a tigela de chocolates, e disse:
      - Vamos l, futura coelhinha do esqui. Passe os chocolates! 
      Rindo, Cris pensou: Covardinha de esqui seria mais exato.
      
"Amigos? Sim, Por favor!"
4
      
      - E quanto essa viagem vai custar? perguntou o pai de Cris na segunda-feira  noite.
      - Por volta de cem dlares, mas estamos fazendo uma campanha para angariar dinheiro e no vamos precisar entrar com tudo isso. Verdade.
      Cris queria transmitir idia de confiana. Estava um pouco mais segura aps a reunio do grupo de esqui, a que fora naquela tarde. Parecia que seria muito 
divertido, e Katie estava exultante.
      O pai de Cris estava ajoelhado, com uma chave de fenda na mo, tentando consertar a poltrona reclinvel, virada e com suas peas separadas. Ele coou os cabelos 
ruivo-acastanhados com ponta da chave de fenda.
      -  muito dinheiro, Cris. Quanto voc espera ganhar com a campanha, e como vai fazer?
      - Vamos vender tabletes de chocolate a dois dlares cada. Um dolar cobre o custo do chocolate e um dlar  para a viagem. Qier comprar uma? falou em tom de 
brincadeira ao pai, que ela sabia, poderia vetar a viagem se achasse que ela no deveria ir.
      - Eu quero um chocolate, gritou o David do seu canto, onde tentava fazer o dever de Matemtica. Me d um?
      - Vai ter de pedir a sua me quando ela chegar do supermercado.  ela que tem umas reservas secretas de dinheiro por aqui. No sei onde ela esconde.
      - No freezer. Vem c e eu lhe mostro, disse David, saltando do sof.  naquela lata onde est escrito "gordura".
      - Fique quieto a, filho, e termine a tarefa. O pai voltou a concentrar-se na poltrona, murmurando para si:
      - Imagine s, em todos esses anos, eu nunca soube onde ela guardava. At meu menino de dez anos sabe que o que eu pensava ser banha de bacon , na verdade, 
o seu tesouro.
      Naquele instante tocou o telefone, e David saltou.
      - Eu atendo!
      - No se preocupe. Eu j peguei! disse Cris, segurando o telefone de parede da cozinha.
      - Cristina, querida, comeou a voz do outro lado. Como voc est? Eu e seu tio Bob estvamos comentando que faz tempo que no temos notcias suas e queremos 
saber como esto todos vocs a.
      - Estamos todos muito bem, tia Marta. E vocs?
      - Tudo bem. E os estudos, como esto indo? Voc j arranjou novos amigos depois que desistiu de ser lder de torcida?
      Cris sentiu-se mal com essa referncia  questo da liderana de torcida, mas alegrou-se de poder dizer  tia que entrara para o clube de esqui. Sabia que 
era um tipo de atividade que ela gostaria. A notcia foi o bastante para tia Marta colocar em ao uma srie de planos. Primeiro, disse a Cris que compraria trs 
caixas de chocolates da campanha para levantamento de fundos, e as venderia na sua prxima reunio de mulheres. E se ela no conseguisse os cem dlares necessrios, 
Marta completaria o que faltasse com o maior prazer.
      E  claro que Cris no poderia ir esquiar sem a roupa apropriada. Tia Marta compraria algumas roupas de esqui no dia seguinte e mandaria entreg-las diretamente 
na casa de Cris.
      - As roupas devem chegar no mximo at o final de semana. Isso lhe dar tempo de experimentar tudo e ver se falta mais alguma coisa.
      - Tia Marta, voc sabe que no precisava fazer tudo isso por mim.
      - Por que voc est sempre querendo acabar com a minha alegria, Cristina? Sabe que adoro ajud-la nessas coisas. Deus sabe que sua me teria o maior prazer 
em dar-lhe essas coisas, se pudesse. Mas todos sabemos que isso no  possvel com o salrio do seu pai. Deixe-me fazer isso por voc e, por favor, pare de agir 
como se fosse coisa to sria. Na verdade no  nada!
      Cris suspirou. Havia muito tempo, aprendera a no contrariar a tia.
      - Muito obrigada, tia Marta. Quer que eu mande as caixas de chocolate pelo correio?
      - Na verdade, o Bob ir jogar golfe no Rancho Santa F, quarta-feira. Peo a ele que d uma chegada na sua casa para pegar o chocolate. Talvez ainda consiga 
mandar algumas das roupas de esqui com ele, isto , se eu achar tudo de que voc precisa. Agora, querida, sua me est em casa?
      Acabou de entrar, disse Cris, erguendo o fio para que a me passasse por baixo dele.
      O rosto redondo da me estava vermelho pelo esforo. Ela colocou dois sacos de compras no balco e puxou para trs uns fios de cabelo que comeavam a ficar 
grisalhos.
      -  sua irm, me, falou Cris, passando-lhe o telefone.
      Com a mo livre, a me fez sinal a Cris para que ajudasse a descarregar o resto das compras.
      Vamos l, David! gritou Cris ao passar pela sala. Me ajude a trazer as compras pra dentro de casa.
      - No posso, disse David, empurrando os culos para cima. Estou fazendo o dever.
      Et irmozinho! Voc salta pra atender o telefone ou revelar os segredos do freezer da me, mas quando peo pra me ajudar, de repente voc tem de fazer o dever 
de casa.
      - Vamos l, David! ordenou o pai. Voc pode fazer um pequeno intervalo e ajudar sua irm. Eu tambm vou nessa.
      Ele largou a chave de fenda e foi ajudar os dois a tirar as compras do carro.
      Alguns momentos depois os balces da cozinha estavam abarrotados com seis grandes sacolas de compras. A me desligou o telefone e comeou a guardar tudo.
      - Por que voc nunca compra coisa gostosa? perguntou! David. Os meus colegas de escola sempre levam bolo, balas e doces no lanche. Eu s levo biscoito.
      - Estou tentando proteger a sade da famlia. J comemos porcaria demais. No vou pagar um bom dinheiro por essas coisas quando um biscoito de aveia, feito 
em casa,  muito melhor para a sade.
      O pai virou-se para Cristina e disse baixinho:
      - Parece que sua me andou lendo outro daqueles artigos sobre alimentos saudveis. Observe bem. Aposto que no jantarvai ter bolo de soja e broto de feijo.        
      - Eu ouvi, viu? disse a me. E no vamos comer bolo de soja, no. Vai ser legumes  moda oriental.
      - Com carne de boi? perguntou o pai, esperanoso.
      - No.
      - Frango?
      - No; s legumes. Muitos legumes variados.
      O pai ficou decepcionado. A me tentou convenc-lo.
      - A gente no precisa comer carne em toda refeio, no. Alm do mais, economizamos nas despesas, e  bom fazer um regime  base de legumes de vez em quando.
      - Carne de porco. Essa seria uma idia de primeira. Voc podia colocar umas costeletas junto com os legumes, e da seria uma refeio de verdade...
      A me lanou ao pai um olhar que Cris conhecia bem. Era fingindo severidade. Ela levantava o queixo e abaixava as sobrancelhas. Mas s fazia o pai rir-se disso.
      - Est certo, concordou ele.
      Com dois passos atravessou a cozinha e envolveu a mulher num abrao de urso.
      - Hoje seremos suas cobaias vegetarianas. E amanh,  noite, se voc quiser fazer uma experincia com um enorme bife de primeira, no vamos reclamar nem um 
pouco, no , filhos?
      - Isso a, concordou David. liiih... Parece que vo comear a se beijar. Eu vou fazer meu dever de casa.
      Cris continuou guardando as compras. Com o canto do olho, observou os pais se abraando. Era uma gracinha, o jeito que ainda brincavam um com o outro, meio 
bobos, principalmente porque j estavam casados havia tantos anos.
      - Ah! Pode deix-los de fora, disse a me de Cris ao v-la colocando o aipo e as cenouras na geladeira. Faz parte da comida oriental de hoje.
      Vou deixar vocs duas fazerem o chop suey*, disse o pai, voltando para seu projeto na sala, ainda rindo.
      * Chopsuey: prato chins  base de legumes. (N. E.)
      Cris ficou a imaginar como o pai, to rude, to severo a maior parte do tempo, teria sido na adolescncia, e como seria a me quando se conheceram.
      Noss vinte minutos seguintes, trabalharam picando legumes. Cris perguntou a sua me como ela conhecera seu pai e como as coisas eram para os dois quando jovens. 
Ela j sabia a maioria das respostas. Conhecia de cor e salteado a histria do noivado e do casamento.
      - E quando vocs comearam a sair juntos? Como foi? Como teve certeza de que gostava do pai mais do que daquele outro cara que conhecia, me? Como era o nome 
dele: Charles? 
      - Sabe, no ? Em cidade pequena todo mundo conhece todo mundodo. Eu conhecia seu pai desde a escola primria. As outras garotas diziam que ele era um brutamontes, 
porque era um tanto grando para a idade. Mas era tmido. E gostei dele como amigo durante muitos anos.
      A me abriu novo vidro de leo e colocou um pouco na frigideira eltrica.
      - Ento, quando ele, finalmente, me convidou para sair, achei que devia aceitar, pois ramos amigos, bons amigos, fazia tanto tempo.
      - E como voc soube que era com ele que queria se casar? perguntou Cris, empurrando as cenouras da tbua de cortar para v-las danar na frigideira.
      A me estampou no rosto uma expresso calma e tranquila.
      - Eu no conseguia me imaginar passando o resto da vida com mais ningum!
      O resto da noite, Cris ficou pensando no que a me dissera. Aps o jantar, ela atacou o dever de casa. O primeiro que pegou foi a redao sobre a verdadeira 
amizade. A classe ficara sem entregar os trabalhos naquela manh porque quem dera a aula fora uma professora substituta que nada sabia sobre a tarefa.
      Na noite anterior, Cris fizera sua primeira tentativa, mas a jogara fora. Depois conseguira escrever uns dois pargrafos em que afirmava que o verdadeiro amigo 
 algum em quem a gente confia. Lendo o trabalho agora, parecia sem graa.
      "Uma amizade verdadeira ..." repetiu, pegando seu ursinho Puf e equilibrando-o nos joelhos.
      - Puf, me diga a: o que  uma amizade verdadeira?
      Decidida a continuar com o que j tinha iniciado, em vez de comear outro texto novo, Cris escreveu sobre como sempre se pode confiar num verdadeiro amigo. 
Achou que seria bom incluir a Katie no texto, j que a amiga parecia estar escrevendo sobre ela, Cris.
      "Um amigo de verdade nos diz aquilo que precisamos ouvir", escreveu ela, "mesmo quando o que essa pessoa tem a dizer no  aquilo que desejamos ouvir."
      Aps escrever durante alguns minutos, Cris releu o trabalho e passou a verificar a gramtica. Pensou se poderia terminar a frase com "". Sabia que a professora 
ralharia porque ela empregara a palavra "radical", e mudou para "sincero". Mas da viu que tinha usado a palavra sinceramente logo em seguida. Repetir palavras era 
outra coisa inaceitvel para aquela professora.
      Est muito mais difcil do que eu pensava. Mas eu queria tanto uma nota boa nesta matria...
      Levou pelo menos quinze minutos para reescrever as oraes. Quando terminou, tinha perdido toda a inspirao de antes.
      No  possvel o lado direito e o esquerdo do meu crebro trabalharem juntos. Como posso ser criativa e crtica ao mesmo tempo? Esse negcio de escrever  
difcil!
      Forando-se a continuar, Cris procurou descrever um amigo verdadeiro. Parecia levar uma eternidade. Achou que escrever trs pginas inteiras era um trabalho 
grande demais para um assunto to simples.
      Pelo menos a letra era bonita. Quando acabou de escrever passou a limpo. Gostou da linha final: "Tenho de concordar com Constantino, que disse: 'Minha riqueza 
so os meus amigos'." Era a citao de que ela mais gostara na apostila que a professora distribura.
      - Ento, o que  que acha, Puf? disse Cris, levantando o trabalho para o ursinho "ver". Ser que tiro dez pontos?
      Cris colocou o trabalho dentro do caderno e preparou-se para deitar-se. Antes de apagar a luz, puxou uma caixa de sapato coberta de papel florido verde e fulvo 
de sob sua cama. Abriu-a e olhou para as trs cartas que estavam ali.
      Era sua caixa secreta. Continha cartas que ela escrevia ao seu futuro marido. Escrevera a primeira no dia em que completara dezesseis anos. Fizera as outras 
duas durante os ltimos meses, quando trazia alguma coisa no corao que desejava comunicar ao rapaz com quem um dia se casaria.
      Cada dia que escrevia para ele, orava por ele. Seu alvo era apresentar-lhe a caixa no dia do seu casamento. Ele veria que ela estivera orando por ele havia 
vrios anos, e imaginando como poderia vir a ser a melhor companheira do mundo para ele.
      Cris pegou um papel de carta branco liso, e com letra bem caprichada escreveu: 
      Querido futuro marido:
      Hoje estive pensando sobre amizade e me ocorreu o desejo de que venhamos a ser bons amigos, antes e depois do casamento. Acho que ainda tenho muito que aprender 
sobre o que  ser uma boa amiga, mas estou tentando passar mais estmulo e apoio  Katie. Com isso, acabei deixando-a convencer-me at de ir praticar esqui! E voc, 
gosta de esquiar?
      S queria que soubesse que estou orando por voc e pensando em voc.
      Sua amiga,
      Cris.
      Dobrou a carta com cuidado e juntou-a s outras que j estavam na caixa. Em seguida, colocou a caixa de volta debaixo da cama, segurou o urso Puf bem apertado 
e orou por seu futuro m.arido, seja l quem fosse e onde estivesse.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

" Isso A, Katie!"
5
      
      - Na quarta-feira, Cris correu para casa depois da escola e terminou os deveres antes do jantar. A reunio do grupo de mocidade era s quartas-feiras, quando 
realizavam estudos bblicos. Seus pais haviam determinado que ela tinha de terminar toda a tarefa da escola para poder ir. S fora a esse estudo bblico uma vez, 
pois nunca conseguia completar a tarefa a tempo. Hoje tinha uma razo muito boa para ir: a Katie. Cris pegou a Bblia e a chave do carro, com pressa de sair as dez 
para as sete. Sua me gritou-lhe:
      - Volte para casa at as 9:00. No d carona para ningum. Tranque as portas e telefone se tiver algum problema.
      - Est bem, me. Tudo vai dar certo. Estarei de volta s 9:00.
      Sorrindo para si mesma, pensou:
      Vou s aqui perto,  igreja. Meus pais do a impresso de que vou fazer um safri!
      Chegou na hora e encontrou a Katie no ltimo banco, guardando um lugar para ela.
      - Viu o novo cara que est a? cochichou Katie, apontando para um dos bancos da frente. Ele acabou de chegar do Equador. Ouvi dizer que os pais dele so missionrios.
      Cris observou o rapaz que Katie apontava. Era um gato, com cabelo castanho-claro, ombros largos e pele clara, salpicada de sardas.
      - No parece um filho de missionrios.
      - Por qu? Porque parece normal?
      - . Voc sabe o que quero dizer. Aposto que no  fcil fazer amizades e se adaptar numa outra cultura e tudo o mais depois de morar na selva.
      - Ser que ele morou na selva mesmo?
      - Claro! Onde mais um missionrio no Equador moraria?
      Cris observou o moo sentado na primeira fileira e pensou: Esse garoto missionrio no me parece o tipo do Tarz. Ser que ele morou mesmo na selva amaznica?
      Luke iniciou a reunio com uma orao, e em seguida apresentou o Glen, o jovem recm-chegado, e pediu que ele dissesse algumas palavras.
      Glen parecia meio nervoso de falar ao grupo. Explicou rapidamente que ele e sua famlia eram missionrios na cidade de Quito e que seu pai era diretor de uma 
estao de rdio l.
      Cris e Katie se entreolharam, e Katie cochichou:
      - E eu pensando que ele morava numa palhoa e comia casca de rvore!
      O estudo daquela noite era sobre o significado de ser missionirio. Pelo menos quatro vezes Luke disse:
      "Todos ns somos missionrios onde estivermos. No  necessrio ir a um pas estrangeiro para falar aos outros sobre Cristo. Temos de comear vendo o nosso 
colgio como nosso campo missionrio."
      No final, ele perguntou se algum tinha algum comentrio a acrescentar. Para surpresa de Cris, Katie levantou a mo.
      - Eu queria que vocs orassem por ns, por mim e pela Cris, porque vamos... hum... fazer uma espcie de viagem missionria.
      Cris olhou confusa para a amiga, ainda mais que ela inclura o seu nome na histria. Com um sorriso, Katie continuou:
      - Entramos para o clube de esqui do Colgio Kelly, e faremos uma excurso com eles no feriado de Ao de Graas. Acho que vai ser uma oportunidade para testemunharmos 
a muitos dos colegas, porque no so do tipo que iria  igreja.
      - Isso  timo! comentou o dirigente.  uma oportunidade que vocs duas tero para aprenderem o que significa estar no mundo mas no ser parte dele. Vamos 
estar orando por vocs.
      Ele virou-se e escreveu no quadro: Katie Weldon e Cris Miller - excurso de esqui da escola.
      - Mais algum tem alguma coisa a acrescentar?
      Ser o que ele quis dizer por "estar no mundo mas no ser dele"? Esse passeio  to importante para a Katie! Agora ela o transformou numa viagem missionria. 
Espero que no fique decepcionada se acabarmos no conseguindo ir.
      - Tenho algo a dizer, falou uma garota no meio do salo.
      Cris j a tinha visto antes, mas ela estuda em outra escola, e no sabia o seu nome. Parecia muito legal. Certa vez, na escola dominical, Cris havia pensado 
que ela era o tipo de garota que valia a pena conhecer melhor.
      - Claro, Lisa, pode dizer.
      - Comecei a fazer uma lista h umas duas semanas, e eu a trago dentro de minha Bblia. Acho que se poderia chamar de "lista tiro ao alvo".
      Alguns jovens que estavam perto de Lisa riram-se. Ela no parecia o tipo de pessoa a ter uma lista de tiro ao alvo. Alta e de aspecto meigo, Lisa tinha cabelo 
castanho comprido, levemente ondulado. Parecia uma dessas pessoas que sempre tm uma palavra inspirativa para todo mundo. Seu rosto se avermelhou um pouco, enquanto 
explicava:
      - No  uma lista de pessoas que estou tentando pegar... aqui ela parou e corrigiu: Bom, talvez seja isso mesmo.
      Ela parecia meio indecisa. Luke interrompeu para incentiv-la a continuar:
      - Continue, Lisa. J sei o que est querendo dizer. Uma lista de tiro ao alvo talvez seja o nome certo. Explique o que . Recobrando a coragem, Lisa continuou:
      - Pedi a Deus que me mostrasse para quem eu deveria testemunhar este ano na escola. Ento, quando certos amigos me vm  mente, anoto os nomes. J tenho seis 
nomes e,  noite, oro por eles.
      - O seu plano  simplesmente orar por esses seis amigos?
      - Bem, eu queria comear a testemunhar para eles, mas no sabia como. Umas duas semanas atrs voc falou que a orao  a chave para destrancar a porta. Ento 
comecei a orar por eles. Da, quando surgirem as oportunidades, vou falar-lhes de Cristo.
      -  uma excelente idia, Lisa. Deixe-me perguntar uma coisa. Voc acha que  sua responsabilidade pessoal fazer com que cada um desses amigos entregue seu 
corao ao Senhor?
      Cris pensou como responderia se Luke tivesse feito a pergunta para ela. Provavelmente teria dito "sim". Parecia que, se estivesse disposta a comprometer-se 
a orar por seis amigos, iria querer manter-se firme nesse propsito at que todos se convertessem.
      - No, respondeu Lisa.
      Voc tem muito mais coragem do que eu, Lisa, admitindo isso na frente de todo mundo!
      - Quer dizer, acho que  minha responsabilidade pessoal orar diariamente por eles e falar-lhes de Cristo. Mas sei que a deciso  responsabilidade deles mesmos.
      - Muito bem, disse Luke. Estou contente de ver que voc sabe a diferena.  nisso que consiste testemunhar. Precisamos ser fiis em orar e compartilhar, mas 
temos que deixar os resultados nas mos de Deus. Se fizermos isso, e mesmo assim eles no se interessarem, no podemos tomar sua atitude como ofensa pessoal. Se 
eles rejeitarem a mensagem, lembre-se de que esto rejeitando o Pai celestial.
      Luke virou-se e acrescentou o nome da jovem, Lisa Huisman  lista.
      - Estaremos orando tambm por voc, na sua atuao missionria. Sugiro que todos vocs faam sua prpria lista de tiro ao alvo. Lembrem-se, a base de tudo 
tem de ser a orao.
      Luke respirou fundo, cruzou os braos sobre o peito largo, depois olhou o relgio e disse:
      - Precisamos encerrar. Vamos orar pela Katie, Cris e Lisa. Ele orou por elas e a seguir terminou a reunio, dizendo:
      - Que todos se lembrem de vir cumprimentar o Glen. Mais uma coisa. Tem uma lista no fundo para assinar, se voc for participar da pizza aps o jogo de futebol, 
sexta-feira  noite. So trs dlares para a turma da igreja, e de graa para os visitantes.
      Todo mundo comeou a conversar. Luke falou acima da balbrdia:
      -  disso a que estivemos falando, prosseguiu Luke, tentando falar mais alto que o vozerio. Uma oportunidade de levar os amigos a um lugar onde ouviro de 
Cristo e se divertiro ao mesmo tempo. No venham sozinhos, nem s com os amigos da igreja. Considerem isso como a oportunidade missionria da semana.
      Ento, como se fosse um treinador, gritou: 
      - Vamos l, pessoal! Vamos falar de Jesus para algum nesta semana!
      Cris achou uma pena ter de trabalhar na sexta  noite e no poder ir ao encontro da pizza. Contudo, aps aquele estudo, ela se deu conta de uma coisa: tinha 
poucos amigos no cristos. Se fosse ao encontro da pizza, a quem convidaria? Talvez fosse bom mesmo entrar para o clube de esqui. Assim poderia conhecer algumas 
pessoas que no eram crentes e convid-las para irem  igreja.
      - Vamos l, disse Katie, puxando-a pelo brao. Vamos cumprimentar o Glen.
      - Ser que estou vendo uma garota interessada num gato aqui? gracejou Cris.
      - Estou s querendo ser amigvel. O Luke no disse para fazermos o Glen sentir-se bem-vindo aqui?
      Naquele instante o Luke aproximou-se e disse:
      - Fiquei contente quando voc falou sobre o clube de esqui, Katie.  uma excelente oportunidade para vocs duas.
      Ele sorriu. E Cris se sentiu bem acolhida no grupo, quando ele continuou:
      - Estou contente por v-la aqui, Cris. Espero que possa vir sempre.
      - , eu tambm espero, falou a garota com um leve sentimento de culpa por no ter se envolvido antes. Gostaria de ir ao encontro da pizza na sexta, mas tenho 
de trabalhar.
      - Talvez d para voc passar l depois do trabalho, sugeriu Luke. A gente acaba ficando por a at quase meia-noite.
      Cris sentiu vergonha de explicar que seus pais lhe haviam imposto um limite muito severo: 10:00 da noite. Sorriu e disse apenas:
      - Talvez.
      Katie olhou por cima do ombro de Cris, obviamente procurando o Glen.
      -  melhor irmos andando, Cris.
      - Posso antes perguntar-lhes uma coisa? indagou o dirigente.
      Katie olhou para onde o rapaz estava e depois para o Luke.
      - Sim?
      - Alguma de vocs tem visto o Rick Doyle ultimamente? Acho que algum disse que ele estava namorando uma de vocs.
      - Eu  que no! defendeu-se Katie rapidamente. Cris respondeu com timidez:
      - Era eu. Eu o namorei no ms passado. Mas ele no est mais por aqui. Est estudando na Universidade Estadual em San Diego.
      - Eu sei disso, mas estava curioso de saber se ele est tendo comunho com cristos. Parece que ele andou largando tudo no final do ano passado, e no o tenho 
visto. Queria saber quem manteve conta to com ele para saber notcias.
      - Na verdade no sei como ele est, disse Cris. Mas pelo menos mudou para uma repblica com uns caras cristos, e um deles, o Douglas,  meu amigo. O Douglas 
 um crente firme.
      - Ainda bem. Isso me anima. Se voc vir o Rick, diga-lhe que perguntei sobre ele e que estou orando por ele.
      - Ela, provavelmente, no o ver mais, disse Katie, dando um olhar de "vamos embora" para a Cris, e em seguida acrescentou: Preciso me inscrever para a pizza. 
Com licena.
      Sacudindo os cabelos cor-de-cobre, ela virou-se e correu na direo da lista prximo  porta dos fundos.
      Cris notou o Glen com caneta na mo, prestes a assinar, quando Katie quase pulou em cima dele. Ela deve ter-lhe dito alguma coisa muito divertida, porque ele 
sorriu, e da a pouco estavam conversando animadamente.
       isso a, Katie!
      Cris olhou para o relgio da parede e percebeu que s tinha dez minutos para chegar a casa. Conseguiu fazer sinal para a Katie, despediu-se dela e foi para 
a porta da frente, menos abarrotada de gente.
      No caminho para casa ficou pensando em como era bom ver a Katie interessada pelo Glen. Esperava que ele fosse um cara legal, que no viesse a entristecer sua 
melhor amiga. Mal podia esperar o dia seguinte na escola, quando perguntaria  Katie como fora o papo com ele.
      - Ento, me conte como foi, disse na manh seguinte, quando entrou na sala de Ingls e encontrou Katie j sentada em sua carteira.
      - Foi o qu?
      - O papo com o Glen! Em dez segundos voc conseguiu fazer ele rir. Como  que conseguiu?
      - Ento voc tambm notou, hein?
      - Claro que notei. Me conte o que aconteceu.
      - Eu s lhe perguntei se ele comia larva no Equador.
      - Larva!* Que horror! Por que voc perguntou uma coisa dessas?
      * Larva de um inseto, que os ndios comem. (N. da T.)
      - Queria ser original, replicou Katie com um sorriso. Deu certo. Ele disse que me procuraria amanh  noite, na pizza. A professora interrompeu a conversa:
      - Isto aqui no  um clube social. Por favor, Cris Miller, v para o seu lugar, para que possamos iniciar a aula.
      Tenho a leve impresso de que essa professora no morre de amores por mim.
      Cris voltou depressa ao seu lugar e se esforou para ter um comportamento exemplar durante o resto do perodo.
      No almoo, Cris conseguiu ouvir o resto da histria de Katie. Parecia que ela e o Glen se tinham dado muito bem, e Katie estava animada porque iria encontr-lo 
na sexta-feira. Cris sentiu-se deixada um pouco de lado porque teria de trabalhar. Mas resolveu entusiasmar-se e apoiar Katie, visto que a amiga tambm lhe dera 
uma grande fora.
      - O que voc acha que devo vestir? Jeans seria uma boa, no cha? Com o qu? Uma blusa, camiseta ou malha? Eu poderia usar a malha da Universidade do Hava 
que voc me trouxe,  ou seria muito careta?
      - Acho que ficaria tima.
      - Voc s est dizendo isso para me agradar. Na verdade, acha que eu deveria sair e comprar uma camisa nova. E eu acho essa uma tima idia. Voc foi escolhida 
para ir comigo ajudar a escolher a camisa nova, est bem? indagou, e a parou um instante e encarou Cris com esperana. Que tal? Pode ir comigo ao shopping depois 
da escola?
      - No sei. Vou ter de perguntar. Se voc pensar bem, vai lembrar que j tem umas roupas bem bacanas que pode usar, se estiver sem dinheiro para comprar coisa 
nova.
      Cris escolheu as palavras com cuidado, porque algumas semanas atrs Katie dissera que s tinha cinquenta dlares, que sua av lhe dera para comprar roupas 
para a volta s aulas, e isso mal dera para o tnis.
      - 'Tou' com vinte dlares de baby-sitting que eu ia usar na viagem de esqui. Mas isso me parece bem mais importante.
      - E como esto as suas vendas de chocolate da campanha? Acha que vai conseguir vender dez caixas nas prximas trs semanas?
      Katie devolveu no ato a pergunta a Cris. 
      - E voc? Quantas voc vendeu at agora? 
      - Bem, o meu tio passou l em casa ontem  noite quando estava na reunio da mocidade. Ele ia levar trs caixas pra minha tia vender no grupo de mulheres que 
ela frequenta.
      - Ento voc ganhou trinta dlares sem mexer um dedo?  Sem nem estar em casa?
      - Na verdade, ele acabou levando as dez caixas. Ele disse que passaria adiante para a meninada que viesse pedir doces ou travessuras no Halloween.*
      * Hallowenn: festa tradicional do dia 31 de outubro, em que as crianas e os jovens saem fantasiados e pedem doces de casa em casa. Se no ganham doces, fazem 
travessuras na casa. (N.da T.)
      - Deixe-me ver se entendi bem. Seu tio comprou todas as caixas ontem  noite, e voc j tem a quantidade total para ir esquiar?
      - !  mesmo, j tenho.
      Cris no tinha pensado nisso at ento. Agora no tinha mais razo para desistir da viagem.
      - E agora s falta a sua tia lhe comprar umas duas roupas novas de esquiar, e voc est pronta pra partir!
      - Eu lhe contei que ela ia fazer isso, no contei? Cris no acreditava que Katie estivesse zangada pela ajuda generosa que Bob e Marta lhe estavam dando.
      - Meu tio trouxe as roupas ontem  noite, mas ainda no tive tempo de experimentar.
      - Cris, eu estava brincando sobre as roupas! Quer dizer que sua tia realmente comprou um monte de roupas pra voc?
      - Tem que entender como minha tia . Pra ela, isso no  nada.  o jeito dela participar da minha vida, ou coisa parecida. Eu no ando por a pedindo pra ela 
me comprar as coisas.
      Katie abanou a cabea lentamente.
      - Voc  muito paparicada por seus parentes ricos, Cris Miller, e nem sabe disso!
      Agora era a vez de Cris lanar-se na defensiva.
      - No sou no! Tenho de trabalhar pra ter dinheiro para pr combustvel no carro. Esqueceu-se disso? E voc j viu onde eu moro. Minha famlia no pode nem 
comprar uma casa: estamos pagando aluguel. A sua casa  trs vezes maior que a minha; voc tem seu prprio carro, e seu pai paga seu seguro e sua gasolina.
      - T certo! replicou Katie, e abaixou a cabea como que entregando os pontos. Voc est certa.  ridculo a gente ficar nervosa por nada. Acho que eu no esperava 
que voc conseguisse o dinheiro to depressa, principalmente porque eu estou no saldo negativo...
      - O que voc quer dizer?
      -  que, bem, ainda no vendi nada.
      - Espera a! disse Cris, mexendo na caixa de chocolates da amiga e abrindo a ponta do papelo. S tem dois aqui. Quer dizer que voc j vendeu oito. Isso quer 
dizer oito dlares para a viagem. Que  que h errado com isso?
      - No vendi exatamente oito chocolates. Cris contou de novo.
      - S tem dois aqui. Com dez na caixa, quer dizer que voc vendeu oito. Certo? Voc ganhou oito dlares.
      Abaixando a cabea e mordendo o lbio, Katie confessou:
      - Na verdade, eu devo dezesseis dlares.
      Cris arregalou os olhos azul-esverdeados e disse:
      - Katie Weldon, voc fez isso?
      - Bem, sabe, n? Eu tenho loucura por chocolate. No consigo ver um bombom. Ele comea a me chamar e fica dizendo "Me coma! Me coma!" No meio da noite ele 
me acorda. Quando estou tentando fazer o dever de casa, ele me chama. Eu tento no escutar; tento me dizer que ele est chamando alguma outra Katie e no a mim. 
J tentei de tudo! O nico jeito de fazer o chocolate calar  com-lo!
      Cris caiu ento na gargalhada, pasma com a confisso da a miga.
      - Oito barras gigantes de chocolate em dois dias?
      - Trs dias. Recebemos na segunda-feira, lembra?
      - E voc no ficou doente?
      - Na verdade, estou me sentindo muito bem. Sinto-me um tanto apaixonada. No foi o que disseram na aula de Cicias no ano passado? Que o chocolate libera uma 
substncia qumica do crebro e faz a gente pensar que est apaixonada?
      - Sei disso no, mas  melhor voc largar essas barras de chocolate hoje e amanh. Seno, amanh  noite quando voc vir o Glen, no vai saber se  o verdadeiro 
amor ou  efeito do chocolate!
      - Voc tem razo! E o que fao sobre essa campanha de angariar fundos? Estou na pior situao possvel.  para irmos juntas nessa viagem, e at agora, voc 
j conseguiu todo o dinheiro, as roupas novas e eu devo ao clube de esqui dezesseis dlares. Voc no iria esquiar sem mim, iria?
      Criss riu-se de novo antes de oferecer sua soluo.
      - Que tal voc me dar todo o seu chocolate e eu tentar vend-lo na loja de animais? O Jon  legal sobre coisas desse tipo. Ento em vez de voc comprar uma 
camisa nova pra usar amanh, por que no toma emprestada uma das minhas para sentir que est usando algo novo? Depois voc passa dezesseis dos seus vinte dlares 
e deixamos quite sua conta da campanha de angariao de fundos.
      - , voc est certa. Mas assim s fico com quatro dlares.
      - E da? D pra voc passar o final de semana. A pizza vai ser trs dlares e ainda lhe sobra um pra... dar de oferta no domingo!
      - Boa idia, concordou Katie. Eu estava mesmo pensando em contribuir para um fundo especial da igreja.
      - E qual fundo ser? Deixe que eu adivinhe? Seria o fundo de misses?
      As duas garotas caram na gargalhada.
      - Sabe que esses missionrios precisam de todo o nosso apoio, disse Katie.
      - Tenho certeza de que voc participar disso, apoiando socialmente um certo missionrio amanh  noite! gracejou Cris.
      - Todos ns temos que fazer o que pudermos! E essa  minha pequena contribuio!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Tesouros Peculiares
6
      
      Naquela tarde, Katie e Cris resolveram procurar uma camisa que Katie pudesse tomar  tomar emprestada. Depois de quarenta e cinco minutos de procura, a cama 
de Cris estava coberta de roupas, e Katie ainda no tinha resolvido qual delas levaria. Tinha experimentado quase todas as peas dela,  mas s nada parecia lhe agradar.
      - Ainda acho que a verde  a que fica melhor em voc, comentou Cris, sentando-se no cho e descansando as costas contra a cama.
      Kaitie levantou-se e deu sua opinio sincera.
      - Ela parece roupa de baixo de antigamente.
      - Eu sei.  pra parecer assim. Mas ficou bem em voc. 
      Katie vestiu-a de novo e estudou sua imagem no espelho.
      - Mas tem manga comprida. E se fizer calor l dentro?
      - Dobre as mangas.  assim. Fica bem esportivo em voc.
      - Eu sempre sou esportiva. Mas dessa vez no quero parecer esportiva. Quero estar bonitinha. No, retiro minhas palavras.Quero estar atraente. No; mude isso 
pra deslumbrante. No, na verdade... Katie parou, virou-se e disse de supeto: No quero pareecer-me comigo mesma - quero parecer-me com voc!
      - Comigo? Por qu? Voc  uma gracinha, Katie. Olhe s. Tem um corpo bem-proporcionado; cabelo diferente, ruivo, cheio de vida, e olhos verdes lindssimos. 
Srio, Katie, voc  uma graa!
      - No quero olhos verdes. Quero que os rapazes digam que so "olhos de matar", como dizem a voc. E cabelo ruivo "cheguei" s tem valor pra cantora de rock. 
Eu preferia ter cabelo castanho sedoso como o seu.
      Cris ficou calada. Nunca tinha se comparado com a amiga e no podia negar o que Katie estava dizendo sobre ela.
      - Vamos encarar os fatos. Com a sua aparncia e a sua personalidade, voc tem caras como o Rick e o Ted brigando pra ter sua ateno. Eu, no. Nunca que um 
cara se interessou por mim. Lembra do desastre que foi no ano passado quando convidei um rapaz para a festa de formatura?
      Cris concordou com a amiga, lembrando-se do buque de cravos verdes da Katie e o jeito como Leo fingira a noite toda que ela no existia e depois a mandou embora 
na limusine alugada.
      - A quem estou querendo enganar? Por que eu pensaria que o Glen se interessaria por mim?
      - Porque voc  voc! Voc  maravilhosa, e Deus a criou pra ser um tesouro peculiar dele.
      - Ser o qu?
      - Minha av sempre dizia isso. Ela me mostrou no Velho Testamento, em xodo, acho. Deus chama seu povo de "tesouro peculiar".  isso que voc , Katie. Ns 
duas somos tesouros peculiares de Deus. E da se ainda no h um cara na sua vida que aprecia voc pelo que voc ? Continue sendo como  e espere o seu heri, t 
bem? Voc merece.
      Os olhos de Katie estavam cheios de lgrimas e ela se levantou e deu um abrao em Cris.
      - Se voc no fosse minha amiga mais chegada, Cris, eu seria totalmente infeliz!
      - No, no, no! Pelo contrrio. Se eu no tivesse voc como amiga, eu  que seria totalmente infeliz!
      - Acho que somos um par de tesouros peculiares muito felizes, disse Katie com uma risada gostosa.
      - E esse tesouro peculiar inconfundvel, disse Cris, apontando para a Katie, vai ficar lindo usando uma camisa verde que parece roupa de baixo de antigamente 
com as mangas arregaadas. Vai ser ela mesma, e se divertir  bea!
      - Se  voc quem diz, comentou Katie, voltando a sorrir. Em seguida, olhando para as roupas em cima da cama, brincou.
      - Tem certeza de que no h mais nada que eu possa experimentar?
      - Espere a! Tem sim! Volto j.
      Cris saiu correndo do quarto e voltou um minuto depois com trs grandes sacolas de compras.
      - So as roupas de esqui que tia Marta mandou. As duas amigas comearam a tirar as roupas das sacolas e a experiment-las.
      - Essas calas so "cheguei", no so? perguntou Katie, verificando no espelho como ficavam as calas de esqui rosa-shocking com desenhos pretos.
      Uma blusa de gola olmpica preta com os desenhos rosa-shocking completava o conjunto.
      - No sei se teria coragem de usar isso em pblico, concluiu.
      - Aqui, disse Cris, pegando uma cala preta bem grossa na ltima sacola. Esta  mais discreta. Experimenta esta em vez da cala rosa "cheguei".
      - Boa idia. Esta aqui fica bem melhor em voc. Eu no sou do tipo mulher-maravilha-rosa-shocking.
      Katie passou o conjunto a Cris, que o vestiu, sentindo-se ousada e segura de si. Tendo a aparncia de uma esquiadora experiente, talvez fosse mais fcil superar 
o medo de enfrentar as montanhas de neve de verdade. Sim, ela ficaria com o conjunto rosa-shocking.
      - Est muito melhor em voc, comentou Katie, vestindo a cala preta. Esta me serve bem. O que voc acha? Voc me empresta para a viagem?
      - Claro. Experimente esta blusa, falou Cris, jogando-lhe uma blusa de l branca com tringulos pretos no peito e nos ombros. As duas vo combinar bem, e as 
cores destacam o seu cabelo.
      - Olhe s pra ns! dizia Katie ao examinar a imagem das duas no espelho. Parece que entendemos de esqui. Me d aquelas luvas pretas ali.
      Cris pegou as luvas novas no cho e um par de culos de esqui no fundo da sacola. Katie ps as luvas e os culos e fez uma pose de esquiadora.
      - Cuidado, lago Tahoe! Dois tesouros peculiares esto indo pra a!
      Mais tarde, naquela noite, Marta telefonou para saber se Cris gostara das roupas novas.
      - So todas lindas, e me servem perfeitamente! Vou emprestar para a Katie a cala preta e a blusa branca, se voc estiver de acordo.
      - E ento, voc vai ter roupa suficiente? Vocs vo passar juntas todo um fim de semana, lembre-se disso.
      - Tenho certeza de que no vou precisar de mais nada.
      - Eu vou comprar mais uma cala preta e uma blusa de l vermelha para combinar. Quase comprei a blusa um dia desses, mas lembrei que voc me contou que o Rick 
gostava de ver voc de vermelho. No queria deix-la triste, j que terminou o namoro com o pobre rapaz. Mas, como voc precisa de mais um conjunto, vou comprar 
a blusa vermelha. Fique certa, Cris, de que no vou compr-la s para que voc volte a pensar no Rick.
      Puxa vida! Ser que minha tia "cabulou" na escola de lato, ou o qu?
      - Aprecio muito os conjuntos,  tia Marta. Mas voc no precisa comprar mais nada. Verdade!
      - Bobagem! Eu mando as calas e a blusa amanh e um par extra de culos de esquiar para sua amiga.
      - Obrigada,  tia Marta. E agradea ao tio por ter comprado o chocolate.
      - Ele est aqui na cozinha, colocando adesivos de Halloween em cada um. Voc conhece seu tio. Ele gosta de ter alguma coisa especial para a crianada que aparece 
por aqui no Halloween. E voc, vai se fantasiar este ano?
      - Acho que no.
      - Ns devamos dar uma festa a fantasia para voc no ano que vem. No seria divertido? Quando eu e sua me ramos meninas, tivemos uma festa, e eu me vesti 
de Flapper.
      - Voc se fantasiou de Flipper, o golfinho?
      - No, querida, eu disse Flapper. Sabe, uma danarinn dos anos vinte. Provavelmente ainda tenho a fantasia. Bem, pense no assunto e resolva quando podemos 
dar a festa para voe. Podia ser uma festa de boas-vindas para o Ted. Voc ainda no sabe quando ele vai voltar, sabe?
      Cris engoliu em seco.
      - No, no sei.
      - Entendi. Bem, divirta-se. Quero que saiba que estou muito orgulhosa por voc ter entrado para o clube de esqui. Vai ter a oportunidade de conhecer outros 
jovens, e como voc estar elegantssima, quem sabe o que poder acontecer?
      Certo. Quem sabe? Posso quebrar todos os ossos do meu corpo. Mas graas a voc, tia Marta, estarei muito elegante na maca.
      No dia seguinte, no trabalho, Cris perguntou ao Jon se poderia vender o chocolate de Katie ali.
      - Tudo bem comigo. Afixe um cartaz na caixa e fique de olho, pois alguma criana pode pegar um e sair sem pagar. Quanto custa?
      - Dois dlares cada tablete. Tem dez em cada caixa.
      - Verdade? indagou Jon, parecendo animado. Eu levo uma caixa.
      - Uma caixa inteira s pra voc?
      - No, para minha irm. Ela  louca por chocolate. Vou mandar-lhe uma caixa de aniversrio. Assim no preciso quebrar a cabea tentando resolver o que dar. 
E j vem na caixa. Vai ser mais fcil do que tentar mandar o vaso ou o perfume pelo correio.
      Jon pegou uma das caixas da sacola de Cris e tirou uma nota de vinte dlares do bolso.
      - Muito obrigado, Cris. Isso facilitou minha vida.
      Cris olhou a nota que ganhara com tanta facilidade e depois para o Jon.
      - No foi nada. Sempre fico contente por poder ajudar.
      Tirou um envelope da bolsa e colocou a nota junto com os dezesseis dlares que Katie havia dado pelas oito barras de chocolate que comera.
      Katie, pode ser que, no final das contas, acabemos indo nessa excurso! S faltam oitenta e duas barras!
      Encontrou uma caneta hidrogrfica nos fundos e fez um cartaz para a caixa de chocolates, levando-a para junto da caixa registradora. Beverly estava l, dando 
troco a um fregus.
      - Ol! disse Cris. Vou colocar isso aqui. O Jon disse que posso.
      - Cheira a chocolate! Um cheiro bem mais agradvel do que o dos animais. Devem vender bem. Jon deu uma sada. Disse que ia despachar o presente da irm. Esqueci 
de perguntar se ele resolveu mandar o perfume ou o vaso.
      - Nenhum dos dois. Vai mandar uma caixa de chocolates. Beverly riu-se e abanou a cabea. Sua trana comprida sacudiu-se nas costas feito uma corda de pular.
      - A gente nunca sabe o que esse cara vai fazer! Eu no lhe disse? O rei das devolues. Observe s: ele vai devolver o vaso e o perfume e vai comprar outra 
coisa. O que voc acha que pode ser?
      - Uma gravata?
      - No, nunca vi o Jon de gravata. Talvez ele compre um cinto de couro ou ento alguma coisa maluca, como aqueles aparelhos de ginstica.  uma bicicleta ergomtrica 
e esteira mecnica numa s pea. Ele anda falando em colocar uma nos fundos para fazer exerccios nas horas vagas.
      - Que horas vagas? O cara nunca pra!
      - Olhe o telefone. Eu atendo. Pode ficar na caixa registradora?
      - Claro.
      Cris observava enquanto Beverly corria para os fundos; percebeu ento como sabia pouco a respeito dela e de Jon. Ambos pareciam gente muito boa e pouco estressada.
      Mas como estariam com relao a Deus? Depois do que Luke dissera no estudo bblico de quarta-feira, e a lista de tiro ao alvo da Lisa, Cris comeara a se preocupar, 
desejosa de encontrar uma maneira de ser missionria junto aos que a cercavam. No intervalo, deu uma rpida chegada  livraria evanglica, no final do shopping. 
Comprou dois livretes que explicavam como tornar-se cristo, e um carto para a Katie com os dizeres: "Nosso Deus  um Deus maravilhoso."
      De volta  loja de animais, tentou resolver qual seria a melhor maneira de entregar os livretes a Beverly e ao Jon. Pensou em deix-los na mesa "por acaso". 
Isso era covardia. Talvez devesse entreg-los pessoalmente e dizer algo como: "Isto  sobre a vida e a morte. Por favor, leia." No. Seria dramtico demais.
      At a hora de ir para casa, Cris j estava uma pilha de nervos, tentando saber como testemunhar. Tinha imaginado pelo menos umas vinte maneiras de entregar 
os livretes, mas no teve coragem de usar nenhuma, e eles ainda estavam na bolsa.
      Espero que a Katie tenha mais sucesso do que eu na sua misso hoje, pensou Cris ao cair na cama.
      Na manh seguinte Katie ligou s nove e meia com um relato misto.
      - Ele conversou comigo um pouco. Foi esquisito. Nenhum de ns sabia o que falar. Ficamos ali, parados. Estava um barulho em volta, difcil de conversar. Mas 
ele ficou sentado ao meu lado a maior parte do tempo. No disse nada sobre a gente se ver no domingo ou na prxima quarta-feira. Acho que estava s tentando ser 
educado.
      - Ou ento, sugeriu a amiga, nervoso e sem saber o que dizer. Voc no pensou nisso? Os rapazes podem ficar nervosos tambm, sabe?
      - Sei l. Antes de comear, eu o vi conversando animado com um monte de rapazes no estacionamento. Da, ele entrou e  sentou na minha frente e no disse quase 
nada.
      - No entendeu? L no estacionamento ele estava falando mm outros rapazes. Rapazes, Katie.  diferente de tentar conversar com uma garota. Principalmente uma 
garota por quem e se interesse. Tenho certeza que o Glen estava nervoso, e foi por isso que quase no conversou.
      - Acha mesmo?
      - Claro. Olhe s quanta coisa positiva aconteceu. Ele deixou a turma dele e veio sentar ao seu lado.
      - Eu no tinha pensado nisso.
      A voc tem uma prova de que ele est interessado em voc. E a segunda coisa  que ele ficou por algum tempo. Podia ter ido embora ou voltado para junto dos 
rapazes. Acho que se ficou  porque queria. Vai ver que  tmido ou nervoso, ou inseguro. Mas acho que o Glen ainda vai se abrir com voc.
      - Espero que esteja certa, Cris. Ele me parece um cara bem legal e tem jeito de ser carinhoso. Espero ter outra oportunidade de conversar com ele alguma hora.
      - Vai ter. Tenho certeza. At que foi bem para a primeira vez juntos. Voc ainda vai v-lo domingo. O que vai vestir?
      - No goze de mim, mas acho que vou de vestido. Vai ser a primeira vez que muitos dos meus amigos me vero trajando algo que no seja short ou jeans. Pode 
at fundir a cuca de alguns! Vo pensar que uma irm gmea da Katie, que estava desaparecida, veio visitar a classe de jovens. Mas olhe, s vezes a gente tem que 
criar coragem e fazer alguma coisa diferente, no ?
      - E por falar em criar coragem, eu queria falar de Jesus para o Jon e a Beverly ontem no trabalho, mas nada aconteceu. Acho que o Glen no  o nico nervoso 
ou tmido demais pra abrir a boca.
      - Espere uma oportunidade natural de falar. Vai dar certo.
      - E vai dar certo com voc tambm. Quer dizer, com o Glen. Espere uma oportunidade natural pra dizer alguma coisa a ele.
      - Tem alguma coisa no livro de regulamentos que diz que eu no posso usar um vestido?
      - No. Acho que um vestido dar um toque muito bonito.
      Mais tarde Cris ficou pensando no que poderia acrescentar um belo toque ao seu empenho de testemunhar. Talvez um carto com um versculo bblico. A ela poderia 
dar o livrete e o carto e fechar o envelope.
      A manh no trabalho passou depressa porque estavam recebendo um novo estoque na loja. Durante a primeira hora, Cris ficou nos fundos, abrindo e marcando caixas 
de rao. Durante o intervalo para o almoo, deu uma corrida at a livraria evanglica. Ficou ali uns vinte minutos, procurando um carto adequado. Nenhum dos que 
havia no expositor parecia certo para o Jon ou para a Beverly.
      No final, comprou dois cartes com cenas de jardim na frente, sem dizeres. Achou melhor ela mesma criar uma mensagem para escrever neles.
      Ficou a tarde toda pensando no que deveria colocar ali para testemunhar de sua f. S lhe vinham frases curtas. Era como se estivesse tentando entrar num concurso 
para criar adesivos evanglicos para carros.
      Ultimamente voc tem pensado no seu destino eterno?
      Sabia que para ir ao cu basta uma orao?
      Acerte com Deus ou fique para trs!
      Agora, uma palavra do nosso Patrocinador Celeste.
      Por favor, no morra sem Deus.
      Sabia que voc precisa de um transplante de corao?
      Quando se fizer chamada, voc estar presente?
      Voc precisa de Jesus.
      Posso testemunhar que...
      Em vez de sentir-se inspirada, Cris estava totalmente frustrada.
      No devia ser to difcil dar testemunho! Qual o meu problema afinal? A coisa mais importante do mundo  saber como podemos ser salvos e ter a vida eterna 
com Cristo. Por que eu no consigo achar um jeito natural de falar disso?
      Quando chegou em casa naquela noite, os dois cartes e os dois livretes continuavam na sua bolsa. Nem tocara neles.
      Mas, antes de dormir, pegou um papel de carta florido, dobrou-o e colocou-o na Bblia. Era a sua "lista de tiro ao alvo". Debaixo do ttulo escreveu dois nomes.
      
      
      
      
      

O Ratinho
7


      As duas semanas seguintes foram cheias de dever de casa, reunies do clube de esqui, estudos bblicos s quartas-feiras e o horrio habitual de trabalho da 
Cris na loja de animais s sextas-feiras e nos sbados. Os cartes em branco e os livretes permaneceram dentro de sua bolsa.
      - Voc acha que vou conseguir o dinheiro a tempo? perguntou Katie a Cris enquanto desciam o corredor da escola aps uma reunio do clube de esqui. Faltam s 
dez dias. Quanto dinheiro falta pra mim? Trinta dlares?
      - Deve ser isso, porque vendemos cinco caixas de chocolates na loja. Jon comprou uma caixa e voc pagou a primeira. O Prof. Riley disse que voc precisava 
de mais trinta e dois dlares.
      - E vou conseguir at segunda-feira, certo? Vou fazer baby-sitting na quinta  noite e vender mais chocolate esta semana na loja de animais. Devo conseguir 
os trinta e dois, certo?
      - Tenho certeza de que sim. Quanto trabalho de casa voc ainda tem pra fazer?
      - No muito. Tenho de ler um captulo para a aula de Estudos Sociais e decorar um dilogo de Espanhol.
      - Venha em casa e estudamos juntas.
      - Sabe,  melhor eu ir pra casa e decorar o texto de Espanhol. Eu lhe disse que tirei 10 na prova de Espanhol?
      - Ser por causa de um certo professor particular de Espanhol, que chegou do Equador? gracejou Cris.
      Ela se sentia feliz pela amizade de Katie com Glen. O rapaz tinha mesmo encontrado um lugar na vida de sua amiga.
      Tudo comeou quando Katie, alguns dias aps a festa da pizza, criou coragem e ligou para o Glen  noite, perguntando qual a correta pronncia de uma palavra 
no dilogo de Espanhol. Glen no s lhe deu a resposta, como tambm ficou conversando com ela mais de duas horas.
      No domingo seguinte, ele continuou a agir com timidez ao lado da Katie. Cris o achou mesmo inseguro e retrado. Mas no dia seguinte, ele telefonou para Katie 
e conversaram mais duas horas.
      O relacionamento deles era um pouco estranho para Cris. Mas Katie parecia contente com o jeito pelo qual as coisas iam avanando, e Cris achou melhor no se 
intrometer.
      -  melhor eu ir. Eu falei para o Glen que se eu tivesse dificuldades com o Espanhol, ligaria pra ele. Parece que vou ter de telefonar mais cedo. Nossa ltima 
conversa foi at bem depois das dez e meia, e minha me no gostou que eu ficasse tanto tempo no telefone. Vejo voc amanh. Bom dever de casa pra voc!
      , bom dever, sozinha!
      Cris se viu dominada por um monte de pensamentos estranhos. Agora sabia como Katie se sentira quando ela namorava o Rick. Era um sentimento estranho, quase 
de competio, como se estivesse zangada com o Glen por roubar-lhe a companhia dela. No esperava sentir-se assim, e nunca pensara que Katie poderia ficar to envolvida 
com qualquer coisa ou pessoa que a descartasse desse jeito.
      Cris dirigiu at sua casa, entrou e tirou um casaco do armrio.
      - Vou fazer uma caminhada antes de comear a estudar, explicou  me.
      - Voc est bem?
      - Estou tima. Estive sentada o dia todo e preciso oxigenar o crebro antes de enfrentar os livros.
      - Bem, tome cuidado.
      - S vou dar a volta no quarteiro.
      - O vento aumentou e est frio l fora. Pegou um agasalho?
      - Peguei, respondeu Cris, fechando a porta da frente, deixando a de tela bater ao vento.
      Algumas folhas secas saltaram para a frente e o ar estava bem frio. Boa temperatura para refletir.
      Andou depressa, pensando na excurso de esqui. Faltava uma semana e meia. Parecia que ia mesmo; no havia como escapar. Disse a si mesma que seria uma experincia 
boa e divertida. Percebera certa decepo no rosto da me, ao lembrar que esta seria a primeira vez que a famlia no estaria toda junta para celebrar o "Dia de 
Ao de Graas".
      Em vez de peru recheado e as compotas especiais tpicas da festa, dessa vez, ela estaria comendo cachorro-quente com milho e tomando chocolate. No havia razo 
para desistir da promessa feita a Katie, mas ficou um pouco triste ao meditar em tudo isso.
      A vantagem de estar fora nesse feriado era que, como o Rick provavelmente viria para casa, ela no teria de v-lo nem conversar com ele. No fundo, sabia que 
tomara a deciso certa, terminando o namoro. Mas era triste saber que o relacionamento s poderia ser "tudo ou nada". Ela gostaria de que continuassem amigos. At 
mesmo amigos melhores do que tinham sido antes.
      A mudana no relacionamento com Katie tambm a deixava desalentada. Sabia que era bobagem ter cimes do Glen, mas reconhecia o sentimento, e, pelo menos para 
si mesma, admitia que era exatamente isso que sentia.
      Se eu tambm tivesse um namorado seria diferente. Ou pelo menos algum com quem estivesse saindo de vez em quando. Ser que a Katie e eu teremos namorados 
ao mesmo tempo em alguma ocasio? Ser que teremos oportunidade de sair juntos, dois casais?
      Os pensamentos, que evitara nas ltimas semanas, comearam a vir  tona quando ela dobrou a esquina e comeou a subir a rua de volta para casa. Agora caminhava 
contra o vento que fustigava seu rosto. Deixou vir  tona os sentimentos do corao.
      Quando ser que verei o Ted de novo? Ser que as coisas vo ser como antes, ou ns dois mudamos tanto que no d mais pra voltar a ser como ramos? Ser que 
ele recebeu meu carto? Gostou? No sei se devo escrever de novo ou esperar que ele me responda...
      Abaixou a cabea e foi em frente. O vento fazia os olhos lacrimejarem. Ela disse em voz alta:
      - E por que acha que ele lhe escrever? Nunca antes escreveu. O Ted  o Ted. Voc no est na vida dele neste momento. Pode ser que um dia... E tambm, pode 
ser que no. A vida continua, Cris.
      Subiu a escada da varanda da frente de sua casa e endireitou um vaso de barro que o vento tinha tombado. Lembrou-se da primeira vez que vira a casa. A tela 
da porta da frente estava rasgada, e havia ali um vaso de barro quebrado, os cacos espalhados pela varanda. Isso fora pouco mais de um ano atrs. Um ano s - mas 
tanta coisa na sua vida havia mudado!
      Por que as coisas tm de mudar? Por que nada. fica do mesmo jeito s mais um pouquinho? Por que Deus sopra o seu vento impetuoso e forte na minha vida e espalha 
tudo e todos?
      Abriu a porta. Logo que entrou na casa aquecida, Cris percebeu que suas faces castigadas pelo vento estavam ficando rosadas. Havia um cheiro maravilhoso do 
bolo de carne e batatas que a me assava.
      Embora ainda faltasse uma semana e meia para o dia em que as pessoas deveriam relembrar as bnos por que eram gratas a Deus, Cris resolveu fazer uma vistoria 
preliminar. Foi direto para o quarto, tirou o casaco, deitou-se na cama e comeou a fazer uma lista no dirio.
      "Sou grata por meus pais, por esta casa, pela minha sade e todas as bnos que Deus nos deu, como o alimento e o vesturio. Sou  grata por minhas amizades 
e..."
      E aqui se deteve um instante. Uma idia veio to depressa, que ela no sabia se deveria escrever. Resolveu deixar fluir seus pensamentos e escreveu:
      "Sou grata pelo Ted. Pelo Rick. Pela Katie. E por meu emprego, minha igreja, meu relacionamento com Jesus, e porque posso conversar com ele a qualquer hora 
e em qualquer lugar."
      No final notou que acabara parecendo uma orao, e acrescentou: "Amm."
      Na quarta-feira, no estudo bblico, houve quase a mesma situao. Luke distribuiu papel e canetas e pediu que todos escrevessem alguma coisa pela qual eram 
gratos, algo pelo qual nunca houvessem, conscientemente, agradecido a Deus. Ento deveriam escrever uma carta para Deus, agradecendo-lhe pelo que haviam pensado.
      Cris pensou muito e, finalmente, escreveu:
      "Deus, agradeo-te pela minha viso. Sempre a considerei a coisa mais normal, mas sou muito grata porque posso enxergar."
      Em seguida, Luke deu outro pedao de papel a todo mundo e disse que pensassem em algum a quem eram gratos, e escrevessem um bilhete quela pessoa, explicando-lhe 
por que eram gratos.
      Cris pensou primeiro que deveria escrever a Katie. Dando uma espiada na carta da amiga, viu que ela estava escrevendo ao Glen, agradecendo-lhe por hav-la 
ajudado com o trabalho de Espanhol. Perdera a graa escrever para a Katie. No final, decidiu escrever aos pais, agradecendo-lhes por tudo que fizeram por ela.
      Apesar de ela e Katie estarem sentadas juntas no estudo bblico, parecia que a Katie nem a notava. Encerrada a reunio, a amiga levantou-se gil como uma pantera. 
Cris ficou olhando-a ir caminhando entre as cadeiras at chegar aonde estava o Glen. Ele parecia gostar da ateno.
      No momento em que ela entregou o bilhete de agradecimento ao rapaz, o rosto dele ficou vermelho. Enfiou o bilhete no bolso sem o ler. Continuou ali de p, 
o rosto ainda rosado, enquanto Katie continuava falando, sem parar, usando os gestos para demonstrar tudo que dizia.
      Embora Cris sentisse um pouquinho de cimes, no podia deixar de estar contente pela Katie. Glen parecia beneficiar-se da amizade, e Katie, no havia dvida, 
tambm estava bastante satisfeita.
      Cris voltou para casa, pensando que afinal se divertiriam muito no passeio. Ao mesmo tempo, teve sentimento de culpa por ficar pensando nisso. Sabia que uma 
das razes pelas quais as duas iam se divertir era que nenhuma estava interessada em qualquer dos rapazes do grupo.
      Se o Glen estivesse planejando ir, provavelmente a Cris teria desistido da excurso. Isso poderia at ser imaturidade de sua parte, mas sabia que ela e Katie 
se divertiriam muito mais sem problemas de namorado no fim de semana.
      Quando chegou a casa, sua me j tinha ido deitar-se, mas o pai estava assistindo  televiso sentado na poltrona reclinvel. Cris entregou-lhe o bilhete e 
esperou para ver sua reao.
      O pai leu o bilhete de agradecimento. Depois, puxou a alavanca do lado da poltrona reclinvel para que o descanso do p se erguesse, mas, em vez disso, o encosto 
da poltrona caiu, quase batendo no cho. Por um instante, parecia que seu pai ia cair de cambalhota para trs.
      Cris saltou para junto dele, esperando atenuar a queda. Mas ele conseguiu equilibrar a poltrona e nada de mau aconteceu, nem com a "cpsula espacial", nem 
com o "astronauta".
      - Bem, disse ele entre risadas, obrigado pelo bilhete. Com tanta coisa errada que fao por aqui,  bom saber que algum acha que acertei em algumas coisas!
      Bateu no lado da poltrona para emprestar mais fora ao que dizia, e Cris lembrou-se que ele a tinha desmontado e montado de novo para tentar consert-la. Deu 
um abrao carinhoso no pai e disse:
      - Voc faz muita coisa certa. Nem sempre me lembro de agradecer, mas eu deveria.
      - Sabe, disse o pai, assumindo um ar de seriedade, eu e sua me vamos permitir que voc participe dessa excurso de esqui, mas ambos estamos meio preocupados 
com isso.
      - Mas por qu?
      - Voc nunca esquiou na sua vida e vai com uma turma que no conhecemos, e, pelo que sabemos, s voc e a Katie so crentes. Estamos meio na dvida se voc 
deveria ir mesmo.
      Cris parecia amedrontada.
      - O senhor est dizendo que no posso ir?
      - No. J discutimos o assunto, e voc sabe perfeitamente que concordamos que voc pode ir.  s que ns no nos sentimos muito tranquilos com relao a isso.
      Cris no sabia ao certo o que responder. Ser que eles queriam que ela desistisse do passeio por si mesma? Deixariam que fosse, mas sem sua bno? Estavam 
deixando a deciso com ela? O que deveria dizer?
      - Acho que a escola no permitiria uma excurso como essa se alguma coisa ruim j tivesse acontecido. O Prof. Riley  o responsvel. Esse j  o quarto ano 
consecutivo que ele e a esposa acompanham o grupo. Tenho certeza de que vai dar tudo certo.
      - Suponho que sim. Alis, voc j esteve em situaes mais difceis do que esta, sem dvida. S quero que saiba que tenho as minhas reservas.
      Ele se levantou, desligou a televiso e concluiu:
      - Bem, era s isso que eu queria dizer. Muito obrigado pelo bilhete.
      Cris seguiu-o pelo corredor, lembrando-se dos tempos de menina na fazenda do Wisconsin. Uma das coisas que mais gostava de fazer era seguir o seu pai pelo 
estbulo. Ele era to grande, que ela conseguia facilmente se esconder atrs dele. Se ela pisasse de leve no feno, ele nem percebia que ela se achava ali. s vezes 
ele parava de repente, e ela esbarrava nele. A ele a carregava, erguendo-a acima de sua cabea, e gritava para as vacas ouvirem:
      "Olhe s, achei um ratinho! Escutem s os gritinhos dele!"
      A essa altura, Cris estaria rindo, dando gritos assustados e pedindo para descer.
      Hoje, seguindo o pai, Cris percebeu que estava apenas uns vinte centmetros mais baixa que ele.  claro que, aos dezesseis anos, ele no mais a pegaria no 
colo, erguendo-a acima da sua cabea, e chamando-a de "meu ratinho". J era quase uma mulher, e ele, praticamente, a estava tratando como tal.
      Seguindo um impulso, no momento em que o pai ia abrir a porta do quarto, Cris chamou:
      - Pai?
      Ele virou-se para ela, mas Cris no sabia ao certo o que queria dizer. Em vez de tentar achar as palavras, ela passou os braos em volta do pai e encostou 
o rosto no ombro dele. O pai retribuiu-lhe o gesto. Olharam um para o outro e sorriram. Cris tinha certeza de que ele sabia o que ela estava pensando.
      Passando a mo calosa nas franjas compridas da filha ele beijou-lhe a testa e disse: - Boa noite, meu ratinho.
      
      

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8


      - Por favor, tragam a autorizao mdica. Quem no trouxer, vai ficar no estacionamento na quarta-feira. Ningum vai na excurso sem o formulrio de autorizao 
mdica assinado por um de seus pais!
      O Prof. Riley fez o anncio em alto e bom som ao encerrar a reunio do clube de esqui, a ltima antes da viagem.
      - E no se esqueam que cada um  responsvel por sua prpria refeio no trajeto de ida e de volta. Ser que lembrei de tudo? Ah, sim, a bagagem! Escutem, 
todos! Tragam a bagagem para a escola na quarta-feira de manh, e levem-na para a sala dos professores. Uma mala cada, um saco de dormir, e uma bagagem de mo ou 
bolsa que ficar com voc. O.K.? Mais alguma pergunta?
      - Sim, disse um dos rapazes. Tem neve?
      - Ouvi dizer que vem uma tempestade hoje  noite. Vamos esperar que caia uma tonelada de neve na montanha nos prximos dois dias, e depois o tempo clareie 
quando chegarmos l na quinta-feira.
      - Espero que no precisemos dirigir em meio  neve, cochichou Cris no ouvido de Katie. Certa vez, quando eu era pequena, nossa famlia ficou ilhada numa tempestade 
de neve, e tivemos de dormir no carro.
      - Verdade? Que medo! Eu nunca vi neve!
      - O qu? Nunca viu neve? Como pde chegar aos dezesseis anos sem nunca ter visto neve?
      - Morei no sul da Califrnia a vida inteira, e minha famlia no viaja muito.  por isso que sempre quis ir esquiar.
      - No acredito, Katie! Voc no tem a menor idia de como a neve traz frio, lama, e deixa a gente at deprimida! Sabe como  difcil andar na neve ou caminhar 
numa calada coberta de gelo?
      - No, disse Katie com sinceridade.
      - Essa vai ser uma viagem e tanto. J vi tudo. Voc tem certeza de que tem roupas bem quentes? E resolveu a questo de dinheiro?
      - Meus pais me deram os vinte dlares que faltavam, e o que recebermos dos chocolates que ainda esto na loja vai ser para as refeies da viagem.
      - Vou passar l a caminho de casa. O Jon  to legal, ele vai me dar meu pagamento adiantado pra eu ter um pouquinho mais pra gastar.
      - Imagine s. Voc planejava usar aqueles cheques de salrio todos pra comprar de volta a sua pulseira!
      - Eu sei, e no tenho idia de quem pagou, disse Cris, passando o dedo sobre a chapinha. De qualquer maneira, pego o resto do seu dinheiro do chocolate e lhe 
dou amanh.
      Cris esperava que os outros tabletes j tivessem sido vendidos. No sbado constatou que ainda havia pelo menos uma caixa e meia.
      Quando entrou na loja aquela tarde, Jon estava perto da caixa registradora, fustigando o ar com uma rede para peixinhos dourados.
      - O que est fazendo? Tentando pegar um peixe-voador?
      - Engraadinha! No. Estou tentando pegar uma mosca. Gosto de alimentar os meus lagartos do modo antigo, orgnico. Upa!
      Jon passou a rede rente ao rosto de Cris, e em seguida fechou  a abertura com os dedos. Ela olhou para a rede que ele lhe mostrava. Realmente,  Jon pegara 
uma mosca.
      - Pode ficar na caixa enquanto levo isso para os lagartos? perguntou enquanto se afastava. Depois, virando-se de repente, se corrigiu: Espera a! Voc no 
veio trabalhar aqui hoje, veio?
      - No, vim pegar os chocolates e... Ela deixou a frase incompleta, pensando que pegava mal querer que o Jon ainda fosse dar-lhe o pagamento adiantado.
      - Certo. Ia me esquecendo. Mas fique um pouquinho na caixa, pode? Volto j.
      Por alguma razo, Cris teve uma sensao esquisita ao ir para a caixa registradora quando no era seu dia de trabalho. Era como se estivesse onde no deveria 
estar.
      Naquele instante um homem, surgindo dos fundos da loja, dirigiu-se  caixa com um saco grande nos braos. Cris lembrou-se dele vagamente, mas no sabia de 
onde. Ele colocou de supeto o saco no balco e disse:
      - Ainda bem que vocs finalmente conseguiram algum que sabe encomendar a mercadoria direito.
      O rtulo no saco dizia: "Paino". Cris lembrou-se de onde o tinha visto. Sem demonstrar que o reconhecera, ela registrou a venda e esperou que ele sasse logo 
sem causar o escndalo da ltima vez.
      - Dois dlares por uma barra de chocolate?!! berrou ele ao ver o cartaz na caixa. Que roubalheira  essa?! E que loja de animais  esta, que vende comida de 
gente? Provavelmente existe alguma lei municipal contra isso. Obviamente no  permitido vender alimento de gente e rao para animais no mesmo balco.
      - Aqui est o seu troco, senhor, disse Cris, estendendo-lhe trs notas de um dlar, com a mo trmula.
      Ele puxou as notas e, agarrando o saco de paino, saiu como um furaco.
      - A vai mais um fregus satisfeito! disse Jon, voltando para a frente.
      - O que  que h com aquele cara? E, a propsito, obrigada pelo privilgio de permitir que eu atendesse justamente a ele.
      Cris colocou a bolsa no ombro e se afastou da caixa, demonstrando que agora estava de folga.
      - Ah! no fique chateada por isso. Ele gosta mesmo de ser ranzinza. Vem aqui pelo menos uma vez por semana e sempre encontra alguma coisa para reclamar. O 
que foi dessa vez?
      - Os chocolates. Mas no tem importncia, porque vou lev-los embora, e ele no poder chamar os fiscais para mult-lo por vender comida de cachorro e chocolate 
no mesmo balco.
      Ela contou rapidamente quantos tabletes ainda havia e perguntou:
      - Tem mais algum l atrs?
      - Estes so os ltimos, disse Jon, remexendo no bolso. Minha irm ligou e disse que so uma delcia, e ento, toma aqui, disse ele, colocando uma nota embolada 
na mo de Cris. Eu compro o resto.
      - No precisa, protestou Cris.
      Abrindo a nota, viu que era de vinte dlares.
      - Isso aqui  demais, falou. S tem trs chocolates. D seis dlares, no vinte.
      - Fique com o troco, disse Jon. Para voc gastar no seu passeio no final de semana. Compre alguma coisa para sua amiga lambm. Como  mesmo o nome dela? Katie?
      -  Katie. Muito obrigada, Jon. Voc  muito generoso. Jon enfiou a mo na caixa e tirou os trs ltimos chocolates. Jogou um para Cris.
      - Tome aqui, fique com um chocolate. E aqui - jogou-lhe mais um - d este para a Katie.
      Desembrulhou o terceiro chocolate e deu uma mordida.
      - Seu pagamento e o envelope com o dinheiro dos chocolates esto na caixa registradora, continuou. Deixe que eu pego para voc.
      Cris acompanhou o Jon, comeando a comer o chocolate. Descobriu que tinha amndoas. Ela detestava castanhas de qualquer espcie. Depois lembrou-se de que uma 
vez, quando estava em Maui, experimentara nozes no iogurte gelado e gostara. Quem sabe gostaria tambm dessas amndoas.
      Deixou a primeira mordida derreter devagar na boca at sobrar apenas a amndoa. Ento mastigou-a.
      Aqui est, disse Jon, dando-lhe os dois envelopes. Divirta-se bastante, no v quebrar nenhum osso. Espero-a de volta no trabalho na sexta-feira que vem.
      - Mais uma vez, obrigada, disse Cris.
      Deu outra mordida no chocolate com amndoas. Nesse momento compreendeu que no gostar de castanhas devia ter sido coisa de criana. Agora, com dezesseis anos, 
seu paladar era outro. No havia nada nas amndoas que lhe desagradasse.
      - Ah! antes de voc sair, eu queria lhe perguntar uma coisa, disse Jon. Que igreja voc frequenta?
      Cris nem quis acreditar no que ele estava perguntando. Talvez essa fosse a oportunidade de testemunhar que estava pedindo a Deus. Engoliu depressa o chocolate 
com amndoas. Disse o nome da igreja, observou que ele pegou um pedao de papel e uma caneta.
      - Como se chega l? perguntou ele, anotando com cuidado as direes. E a que horas comea o culto?
      Cris deu-lhe as informaes, depois, como sua curiosidade a estivesse matando, perguntou:
      - Por qu? Quer dizer, corno voc sabia que eu era crist?
      - Quando voc se candidatou para o emprego, escreveu que no trabalharia no domingo, ento conclu que frequentava alguma igreja. Tenho observado voc para 
ver se vive todas aquelas coisas que eles ensinam na igreja sobre honestidade, no roubar, e tudo o mais.
      Cris franziu as sobrancelhas e esperou que ele continuasse.
      - At agora, tudo muito bem. Estou gostando do seu jeito de agir.
      Isso  bom demais pra ser verdade! Deus est respondendo  minha orao sobre testemunhar para o Jon. E eu ainda no disse nada!
      Animada e bem satisfeita com seu forte exemplo de cristianismo, Cris disse:
      - Ento voc est querendo dizer que, como v Jesus em mim, est interessado em ir  igreja?
      - No, respondeu Jon.
      Cris tentou disfarar a decepo e a indagao.
      - Perguntei porque um velho amigo dos dias de faculdade vem passar o feriado comigo. Ele  crente, e sei que vai querer ir a uma igreja no domingo, ou talvez 
no prprio dia de Ao de Graas. Voc  a nica pessoa que conheo que frequenta alguma igreja.
      Ela no queria deixar passar, assim sem mais nem menos, essa oportunidade de testemunhar. Muniu-se ento de coragem e perguntou:
      - Por que voc no vai com ele, Jon? Acho que se sentiria bem na minha igreja.
      Um sorriso amarelo surgiu no rosto dele.
      - , agora voc me fez de alvo, no ? Eu no me importo com um empurrozinho para o cu de vez em quando, mas por favor, no faa como a garota que trabalhava 
aqui antes de voc. Ela nunca falou nada sobre nascer de novo ou nada disso. Mas deixava uns... como se chama? Folhetos? Bem, ela os deixava espalhados pela loja 
toda, mas em segredo. Acho que ela pensou que ningum saberia que era ela. Ns a chamvamos de "coelhinha da Pscoa".
      Cris suspirou aliviada porque no tinha tentado a mesma tcnica com os cartes e livretes.
      - Acho que quando a gente cr em alguma coisa, deve acreditar mesmo e assumir uma posio clara, e no fazer as coisas por baixo do pano, explicou ele, olhando 
diretamente para a Cris.
      As palavras brotaram no corao de Cris e saram pela boca antes que ela tivesse tempo de det-las.
      - Acho que voc precisa entregar sua vida a Deus.
      - Acha, ? falou Jon, dando risadas. Cris o conhecia bastante para saber que ele estava achando aquilo muito divertido.
      - Gostei dessa, Cris. Voc acredita mesmo nisso e fala. Admiro voc por isso. Seria bom voc acrescentar um pouco de tato  sua sinceridade. Mas eu no me 
surpreenderia se voc me dissesse que est orando por mim.
      A coragem de Cris comeou a sumir, e ela sentia que suas bochechas iam ficando vermelhas sob o olhar intenso do Jon. Em voz mais baixa, disse:
      - Por sinal, estou mesmo orando por voc. Agora o Jon estava surpreso.
      - , no vai me prejudicar em nada, comentou, entrando atrs do balco para atender um fregus que se aproximava da caixa. Tenha um timo final de semana! 
concluiu, sorrindo em despedida.
      No dia seguinte, no almoo, Cris entregou a Katie o dinheiro e contou sobre sua experincia de testemunho.
      - J imaginou o que teria acontecido se voc tivesse dado aquele carto e o folheto? indagou Katie.
      - Eu sei. Com isso aprendi que a vida seria mais fcil se eu no tentasse correr  frente de Deus, disse Cris, enfiando a mo no saco do lanche. Olhe s o 
que eu lhe trouxe! continuou, apresentando o chocolate. Um presente do Jon.
      - Parece que ns vamos mesmo  excurso de esqui amanh! Vamos comemorar! Eu lhe dou metade do chocolate para saudarmos a vitria na campanha de angariar fundos 
que quase virou fiasco.
      Quebrou o chocolate em duas partes, entregou o pedao maior a Cris e ergueu o outro.
      - Um brinde para a melhor amiga do mundo: Cris Miller! Sem sua ajuda eu nunca teria conseguido esse dinheiro, Cris.
      - Claro que teria. Eu tive a ajuda da tia Marta. Nunca pensei que diria isto, mas, um brinde  tia Marta!
      E as duas morderam o chocolate ao mesmo tempo.
      - Ento, est comeando a sentir o efeito daquelas substncias qumicas sobre o crebro? perguntou Cris aps a primeira mordida.
      Katie enrubesceu e disse:
      - Ele me ligou de novo ontem  noite. Estou um pouco triste porque no vamos estar no estudo bblico nem no culto. Acho que o Glen est ganhando autoconfiana. 
Depois de todas essas conversas quilomtricas por telefone, tenho certeza que logo ele acaba sentando comigo na igreja, no acha?
      - Bem, se voc est com tanta pena de passar alguns dias sem v-lo, podemos cancelar a viagem, no podemos?
      - Est brincando? Depois de tudo que passamos com a campanha?! Nada disso! Temos um compromisso com esse passeio, no ? O Glen ter que esperar a minha volta, 
porque sou o tipo de garota que vale a pena esperar.
      -  mesmo, Katie, e no se esquea nunca disso!
      Assim que chegou a casa, Cris comeou a arrumar a mala. Parecia levar uma eternidade. Enrolou as roupas de esquiar porque desse jeito cabiam melhor. O difcil 
era resolver o que mais deveria levar. Comeou com dois conjuntos de moletom, mas eram volumosos demais. Conseguiu reduzi-los a uma cala e duas blusas. As blusas 
de gola olmpica e camisetas couberam com facilidade. A escolha de blusas de l ficou difcil. No final, resolveu levar uma na mala e vestir a outra na sada para 
a escola, no dia seguinte.
      - Como esto indo as coisas? perguntou a me, chegando  porta do quarto.
      - Acho que consegui colocar tudo, disse Cris, lutando para fechar o zper da mala.
      - Voc incluiu umas meias-calas de helanca? E as luvas de l?
      Cris soltou o zper e se deitou para trs no cho.
      - No. E esqueci da minha roupa de baixo!
      - Parece que voc precisa de uma mala maior, disse, rindo, sua me.
      - S podemos levar uma.
      - Acho que na garagem tem uma maior que voc pode levar. Eu volto j.
      A me voltou com uma mala velha do Exrcito que realmente era maior do que a mala nova, moderna, em que Cris tentava colocar as suas coisas.
      - Me, essa coisa velha est caindo aos pedaos, e  horrvel. No quero ser vista nem morta levando uma coisa dessas.
      Por um instante pareceu que a me iria insistir, mas ela s deixou a mala verde no cho e disse:
      - Ento, voc resolve. O jantar estar pronto dentro de quinze minutos.
      Cris ficou sozinha no cho do quarto, com vontade de fazer bico como uma menina, mas ao mesmo tempo querendo agir como uma jovem independente que se prepara 
para uma excurrso de esqui. A deciso era sua: ou levaria tudo de que precisava e seria vista com uma mala antiquada, ou levaria menos roupas na mala legal.
      Jogando tudo no cho, reavaliou o que realmentprecisava e o que poderia deixar para trs. Precisava de tudo e mais. Parecia que a mala do Exrcito era a nica 
soluo. Que nojeira, que humilhao! Tinha at um cheiro ruim.
      Quando estavam terminando o jantar, sua me perguntou se tinha solucionado o problema da mala.
      - , murmurou, comendo uma garfada de ervilhas. Vou levar a mala verde.
      - Acho que voc ficar mais satisfeita. Ah! a propsito, chegou isso aqui para voc. Tem alguma idia do que seja?
      A me pegou um papel de cima do balco e o entregou a Cris. Era um aviso do correio dizendo que havia um pacote para Cris Miller com taxa a pagar. No dizia 
quem era o remetente.
      - No sei, disse Cris, virando o papel e examinando o verso. S diz que tenho de pagar cinquenta e sete centavos.
      - Deixa eu ver. De quem ? perguntou David.
      - No sei. Eu no encomendei nada. Estou com todas as coisas de esqui da tia Marta.
      - Deve ter o CEP de onde vem, disse o pai. Posso ver? Cris entregou-lhe o aviso, e ele explicou:
      - Foi mandado de 96817. Tem de ser algum lugar aqui da costa oeste. Pensei que talvez sua av lhe tivesse mandado alguma coisa, mas o cdigo de endereamento 
dela no comea com nove.
      - Voc pode pegar pra mim amanh? perguntou Cris. Vou sair de viagem depois da escola e s poderia ir ao correio na segunda-feira.
      - Claro. Deixe o papel num lugar bem visvel.
      Quem ser que me mandou o pacote? E o que ser que tem nele?
      
      

Dentro, Mas Por Fora
      9
      Foi quase impossvel prestar ateno  aula do quinto perodo na quarta-feira. Os professores j estavam em clima de feriado e os alunos, quer tivessem planos 
para o final de semana prolongado ou no, conversavam sobre qualquer coisa, menos sobre estudo.
      Quando o sinal tocou, terminando a aula, Cris correu para a sala dos professores, onde Katie j estava, pegando sua mala do monte.
      - J peguei sua mala, Cris. L perto do sof. Voc est com a bolsa de mo e o casaco?
      - Meu casaco ainda est no armrio. Vou correr at l, guardar os livros e peg-lo. Precisa de alguma coisa do seu armrio?
      - Estou pronta. Espero aqui.
      Cris correu, atravessando a multido de alunos, no corredor, surpresa de que seu corao estivesse batendo to forte e depressa.
      Achei que esse dia nunca chegaria. Pensei que alguma coisa aconteceria e acabaramos no indo na excurso. Mas agora chegou a hora e eu vou - com a mala verde 
e tudo o mais. Melhor parar de ser covarde e aproveitar o mximo!
      Fez os giros necessrios no cadeado para passar pelo segredo dele e abriu-o. Pegou o casaco; enfiou os livros no armrio e encontrou-se de novo com Katie na 
sala dos professores, tudo isso nuns cinco minutos.
      Katie trazia a sacola nas costas, o casaco amarrado  cintura, a bolsa de mo pendurada no ombro e o saco de dormir debaixo do brao.
      - O Prof. Riley disse pra gente levar as coisas para o furgo no estacionamento. Voc est com tudo pronto?
      - Acho que sim.
      Cris pegou sua mala do Exrcito e colocou a bolsa de mo a tiracolo. Com a outra mo pegou o saco de dormir e o casaco.
      - Sem querer ofender, disse Katie, olhando a surrada mala verde-oliva do Exrcito, mas vocs no tinham outra mala em casa? Parece que vai a um acampamento 
de treinamento do Exrcito.
      Na verdade, Cris se ofendeu com o comentrio. No por Katie ter falado, mas porque ela j estava quase convencida de que ela no era to horrvel assim e que 
ningum iria notar. Todos os seus temores de sofrer rejeio por parte do clube de esqui voltaram, provavelmente com fundamento.
      - Vamos embora, disse, passando pela Katie com um empurro.
      Talvez, se andassem depressa, o Prof. Riley colocaria as malas delas no furgo primeiro, e ningum mais notaria.
      Mas, quando chegaram ao estacionamento, viram que eram as ltimas a entregar a bagagem. Para vergonha da Cris, sua mala foi colocada em cima de todas. Quando 
se fechou a porta do veculo s aparecia sua mala velha do Exrcito. Na verdade, ocupava todo o vidro de trs. Pior  que na noite passada seu pai tinha resolvido 
marc-la para ela, como se mais algum fosse aparecer com mala igual. Ele escreveu, com marcador preto, MILLER, em letras enormes ao lado. Claro que era o lado que 
dava para fora. No s a escola inteira saberia que a Cris Miller era a dona daquela mala velha horrorosa, mas todo mundo que passasse por eles de carro no caminho 
todo at o lago Tahoe tambm saberia.
      Todos j tinham tomado seus lugares dentro do furgo. Cris e Katie se acomodaram em dois lugares apertados no banco logo atrs do motorista. Na verdade no 
era um lugar legal para se sentar. Cris ficou perto da janela, sentindo que todos os olhos estavam nela. Uma coisa era assistir a uma reunio do clube de esqui com 
o pessoal todo espalhado pela sala de aula. L no tinha importncia ningum saber seu nome nem ligar para ela. Mas aqui, enfiada no furgo com essas pessoas, sabendo 
que estariam se espremendo uns contra os outros nos prximos quatro dias, era outra coisa.
      O rosto quente pela vergonha e pela grossa blusa de esqui que vestia, Cris tentou abrir o vidro do seu lado. Apertou e empurrou, mas nada aconteceu. Katie 
se inclinou e soltou a trave num instante. O vidro abriu-se facilmente, e, com uma voz vigorosa, Katie disse:
      - Tem de ser mais inteligente do que a janela, Miller.
      Cris fitou com ferocidade a amiga repentinamente traioeira, e continuou mandando-lhe seus dardos visuais at que ela percebesse que seu comentrio a tinha 
ofendido. J era ruim ter acontecido ali, entre todos esses estranhos, mas Cris tambm ficou sem saber por que de repente Katie a chamou "Miller". Seria para que 
todos soubessem que a monstruosa mala verde era sua?
      - Ei! Brincadeirinha! disse Katie. Fica fria, Cris! Voc no vai me deixar, vai?
      O que voc est fazendo, Katie? Por que toda essa gria de repente? F.st tentando mostrar a essa gente que voc  radical e eu no?
      Naquele instante, o Prof. Riley sentou-se no lugar do motorista, e sua esposa, loira, com jeito de atleta, sentou-se ao seu lado no lugar de passageiro da 
frente.
      - Ei, Donald, preciso do seu formulrio de autorizao mdica! gritou ele para o fundo do furgo.
      - Puxa! Esqueci no meu armrio da escola. Vou buscar. J volto, disse Donald e levantou-se do seu lugar privilegiado.
      - Vai depressa, Donald. No  justo voc fazer o resto da turma esperar.
      A esposa do professor se apresentou a Katie e Cris.
      - Meu nome  Janet. Sei que meu marido quer que todos continuem tratando-o de Prof. Riley, mas prefiro ser chamada pelo primeiro nome: Janet.
      Ela parecia muito legal, e Cris sentiu-se aliviada por ser a lder feminina to acessvel.
      - Vocs j foram ao lago Tahoe?  to lindo! 
      Por alguma razo Cris acrescentou:
      - A Katie nunca viu neve.
      Parecia uma pontada de lana, e Cris percebeu que dissera isso para se vingar da Katie, pelos comentrios que fizera sobre ela.
      Mas Katie pareceu no se importar. Sem nenhuma vergonha admitiu que nunca vira neve e comeou a pedir a Janet muitos conselhos sobre esquiar.
      Donald voltou com o formulrio mdico. O Prof. Riley ligou o furgo, e da a pouco estavam a caminho. Nos primeiros quarenta e cinco minutos, Cris ficou a 
olhar para fora da janela, enquanto escutava a conversa de Katie com o Sr. e a Sr.a Riley. Conversavam como se fossem velhos amigos. O cara sentado do outro lado 
da Katie tinha virado para trs e conversava com a garota que se encontrava atrs dele. O resto do grupo se acomodou nas suas conversas e agrupamentos naturais.
      Os trs rapazes "radicais" tomaram conta do banco de trs do furgo. Eram todos populares e o Donald parecia o lder do grupo. J estavam de culos de sol 
de esquiador e se esticaram no banco de trs, conversando alto, lembrando o vento que tinham pego em certas corridas de esqui no vale Squaw. Donald disse que um 
ano havia tanta neve, que ele chegou a esquiar ali no dia quatro de julho.* Ningum o questionou nem perguntou se era mesmo verdade toda essa experincia que ele 
contava. Donald e os outros rapazes trouxeram os seus prprios esquis e o restante do equipamento. Todo esse material carssimo estava amarrado no bagageiro em cima 
do carro.
      * Quatro de julho: dia da independncia dos Estados Unidos. Acontece no meio do vero, poca de muito calor. (N. da T.)
      Na frente dos rapazes estavam as moas ricas. Eram trs, e todas tinham o cabelo do mesmo jeito: na altura do ombro, com permanente, suporte e tratamento de 
"luzes" aloiradas. Todas tinham a dentio correta, os dentes alvos, a pele perfeita. Cris no sabia o nome delas, mas imaginou que todas deviam ter o mesmo tipo 
de nome tambm.
      No banco do meio, havia um casal de namorados e uma garota de nome Julie, que parecia prestes a formar um par romntico com o sujeito sentado ao lado da Katie.
      No precisava ser um gnio para perceber que Katie e Cris eram as sobras. Gozado como uma pessoa podia estar "dentro" do grupo e ainda se sentir to "por fora" 
dele!
      Viajaram horas, e Cris dormiu um bom pedao. O casaco acabou se tornando um bom travesseiro contra o vidro fechado do furgo. Estava arrependida de ter vindo. 
Com a Katie tratando-a do jeito como vinha fazendo, Cris no estava nada satisfeita com a idia de passar mais quatro dias em companhia dela.
      Estava escuro quando pararam para jantar. Cris saiu cambaleando e viu que estavam no Jacques Caf, um restaurante pequeno num vilarejo. Algum perguntou por 
que no tinham ido at ao Bishop para jantar.
      - Esta  nossa parada tradicional, replicou o Prof. Riley. A comida  excelente e sempre gosto de trazer freguesia para o Jaque. Em frente, pessoal!
      O grupo entrou e esperou para ser conduzido ao lugar de sentar. A recepcionista indicou-lhes trs mesas grandes. Todo mundo se apressou. Katie sentou-se ao 
lado de Janet na mesa com o Prof. Riley e os trs rapazes populares. Antes que Cris pudesse se enfiar num canto, os lugares foram todos tomados.
      Na outra mesa havia os dois casais, e ela no estava disposta a segurar vela para os quatro. S sobrou um lugar, com as trs garotas ricas.
      - Posso sentar aqui? perguntou  da ponta, esperando ser rejeitada, ou pelo menos um olhar de desprezo. Para sua surpresa, a outra replicou.
      - Claro, Cris!
      Abrindo espao para Cris, apresentou-a s amigas e em seguida, fez as apresentaes para ela.
      - Meu nome  Shannon e esta  Jennifer, e ela  Tiffany.
      Cris ficou surpresa pela amabilidade repentina das trs. Ao mesmo tempo, porm, desconfiou da rpida disposio delas de aceit-la no grupo.
      - Sabe, disse Shannon, entregando a Cris um cardpio, faz tempo que eu queria lhe dizer uma coisa e acho que agora  a oportunidade perfeita.
      Cris ficou ainda mais surpresa. Essa garota no somente sabia seu nome como tambm tinha algo a dizer-lhe.
      - Achei que o que voc fez no ano passado na assembleia final da escola, quando abriu mo do seu lugar de lder de torcida em favor da Teri Moreno, foi impressionante, 
disse Shannon. Sempre quis lhe falar sobre isso, mas no a conhecia e voc est sempre andando com aquela garota que foi mascote.
      Jennifer e Tiffany riram-se por trs dos cardpios, e uma delas murmurou:
      - Parece que, se a pessoa no tem tarimba para ser lder de torcida, pelo menos pode ser mascote.
      - Assim se pode esconder numa fantasia de cougar*, e, se levar uns tombos no campo de futebol, todo mundo pensar que caiu de propsito.
      *Cougar: um tipo de felino, semlhante ao puma, nativo dos Estados Unidos. Na Sria Cris,  o animal do Colgio Kelly High, onde estuda a personagem. (N. Da 
T.)
      Cris no deu risadas com elas. Abriu o cardpio e olhou por longo tempo, querendo organizar os pensamentos. Doa-lhe ver as colegas gozando da Katie, mas no 
momento ainda estava meio zangada com a amiga. Impressionante era que as moas notaram a Cris e a aceitaram no grupo.
      Talvez essa seja mesmo uma viagem missionria, como disse a Katie. Se essas garotas esto dispostas a ser amigas, talvez eu possa falar-lhes de Cristo. Pode 
ser que tudo isso seja uma coisa de Deus, como diria a Katie. E se ela apenas pudesse me apoiar um pouco aqui...
      Quando veio a garonete, as trs amigas pediram sanduche de frango. Cris foi a ltima a fazer seu pedido. Tencionava pedir um hambrguer e fritas, mas no 
ltimo instante disse  garonete que queria o mesmo.
      - Maionese tambm, como as outras?
      - Sim, est timo.
      As meninas sorriram para Cris, que se sentia como se tivesse passado por alguma espcie de iniciao secreta para ser aceita entre elas. Seria a maionese ou 
o sanduche de frango?
      Covarde, pensou Cris.  isso que eu sou!
      Durante a refeio, as trs incluram a Cris na conversa e deram-lhe dicas sobre como esquiar. Todas tinham aprendido o esporte quando eram pequeninas e pareciam 
bastante experientes, mas no estavam sendo chatas. Disseram inmeras vezes a Cris que ela iria se divertir muito.
      Antes que terminasse a refeio, Cris comeou a acreditar nelas.
      
Bem Juntinho e Aconchegante!
10



      Passava de meia-noite quando o furgo parou em frente de um prdio de apartamentos s margens do lago Tahoe. 
      - Escute aqui pessoal! Disse o Prof. Riley, desligando o motor e acendendo a luz. Vamos ficar nos apartamentos quatro e cinco. As garotas ficaro no quatro 
e os rapazes no cinco. Cada um pegue suas coisas e depois vocs, rapazes, voltem para c e me ajudem a levar as caixas trmicas que esto em cima do furgo.
      Ainda apertando os olhos por causa da claridade repentina, Cris desceu do veculo e tropeou na entrada de cascalho. A primeira coisa que notou foi a camada 
branca de neve que cobria o cho na frente do prdio. A rea de estacionamento e as caladas estavam limpas, mas tudo mais sob a luz das lmpadas da rua parecia 
recoberto de glac branco.
      - Neve! gritou Katie. Olhe a!
      Pegou um punhado e jogou-o para o ar, soltinho como p.
      - Viva! gritou de novo, formando uma bola de neve com a mo fechada.
      As trs garotas estavam prximas de Cris atrs do carro, e uma delas perguntou:
      - O que  que ela tem?
      - Nunca tinha visto neve.
      - Nunca?
      - No. Esta  a primeira vez.
      As moas se entreolharam como se houvessem sacado algo, e Cris percebeu o que estavam pensando. Katie no era rica como elas. No viajava, nem usava apenas 
roupas de marcas famosas. Estava claro que no era "do seu meio social".
      No entendia por que aceitavam a ela prpria, Cris. Ser que era porque ela havia renunciado a ser lder de torcida, ou seria outra coisa?
      Vestiu o casaco, cnscia do frio que parecia subir pelas pernas. Era uma sensao que ela conhecera bem em Wisconsin, mas da qual no tinha muita saudades 
desde que mudara para a Califrnia. Detestava ficar com os ps gelados.
      Donald comeou a entregar as malas, e, como a de Cris foi a primeira a sair, ela pensou: Se essas meninas pensam que eu sou do quilate delas, esta velha mala 
do Exrcito vai esclarecer tudo direitinho.
      -  a sua mala? perguntou Tiffany, surpresa.
      Ai! Agora vem! Bem, a popularidade foi boa enquanto durou...
      - Sim,  a minha.
      - Onde voc arranjou? perguntou Tiffany, tocando nela como quem procura uma prova da sua autenticidade. Procurei uma dessas em todos os brechs, no Exrcito 
de Salvao, nas pontas de estoque do Exrcito e da Marinha, e ningum tinha mais.
      Cris achou que Tiffany estivesse gozando sua cara e ia ficar chateada, quando notou que as outras duas olhavam a pea com a mesma admirao. Nenhuma tinha 
ar de deboche.
      - Eu... peguei na minha casa. Era do meu pai. Nem sei onde ele arranjou isso.
      - Que menina de sorte! disse Tiffany com ar de sinceridade. Eu s consegui um par de botas do Exrcito. Minha me mandou impermeabiliz-las e colocar sola 
nova para esta excurso. Esto na minha mala; eu lhe mostro quando entrarmos. Voc vai dormir no nosso quarto, no vai?
      Cris nem quis acreditar no que ouvia. Aquelas jovens estavam falando srio. Aparentemente, equipamento antigo do Exrcito estava "na moda", e ela nem sabia. 
Por que uma menina to rica, que poderia comprar qualquer tipo de bota no shopping, iria procurar um calado antigo em loja de artigos de segunda mo e mandar arrum-lo? 
Cris tinha muito que aprender sobre essas garotas. Janet conduziu as sete garotas para o apartamento dplex e acendeu as luzes. Era bem mais espaoso do que Cris 
pensara. Havia trs quartos, cada um com banheiro, e no andar de cima uma sala e cozinha com vista para o lago.
      -  enorme! exclamou Katie. Onde voc quer que a gente fique, Janet?
      - Se vocs no se importarem, eu vou ficar com o quarto menor l de cima. S tem uma cama de casal. Estes dois quartos do andar de baixo tm quatro camas cada 
um, portanto com bastante espao para vocs todas.
      - Vamos ficar com este, disse Katie, preparando-se para jogar suas tralhas no quarto mais prximo.
      - J est ocupado, disse Tiffany. Jennifer e Shannon passaram por ela e jogaram suas malas no cho, reforando assim a declarao de Tiffany.
      Cris sentia-se como lacerada ao meio. Conseguira avanar bastante no relacionamento com as trs riquinhas, e havia uma cama a mais no quarto. Inclusive, haviam-na 
convidado ajuntar-se a elas. Era uma oportunidade perfeita para testemunhar. Mas, afinal de contas, a razo por que concordara em fazer o passeio era dar uma fora 
a Katie.
      -  melhor eu ir para o outro quarto, disse baixinho s meninas. Eu e Katie planejamos esta viagem juntas, sabe?
      - Bem, se mudar de idia, pode vir para o nosso quarto a qualquer hora, disse Shannon.
      Cris comeou a levar suas coisas pelo corredor.
      - Ei! chamou Tiffany. Logo que voc acabar de colocar as coisas no lugar, venha aqui para eu lhe mostrar minhas botas.
      - Tudo bem, concordou Cris.
      Sentia-se uma traidora, mas era difcil saber a quem estava traindo.
      - Olhe! exclamou Katie quando Cris entrou no quarto. Bicamas! Quer ficar na de cima ou na de baixo?
      - Para mim no importa. Qual voc quer?
      As outras garotas entraram; seus namorados carregavam a bagagem. Disseram "Ol!", puseram as malas no cho e saram com os rapazes.
      - Aposto que no veremos muito essas duas neste final de semana, disse Katie. Eu fico com a de baixo. Voc pode ncar com a de cima.
      - Eu no me importo se ficar com a de baixo. Alm do mais, d para ergu-la para que fique no mesmo nvel da outra.
      - No, assim est timo. Verdade.
      - Cris! gritou algum do final do corredor. Voc vem? 
      Katie lanou um olhar de dvida para Cris.
      - A Tiffany quer me mostrar as botas dela, explicou.
      - Ento vamos l! falou Katie e foi saindo para o corredor, como se tivesse sido convidada tambm. 
      Tenho um pressentimento horrvel sobre isso...
      - Katie, disse Cris, segurando o ombro da amiga e puxando-a de volta para o quarto. Lembra que algumas semanas atrs, no estudo bblico, voc disse que este 
passeio seria uma espcie de viagem missionria para ns?
      Falava baixinho, esperando que Katie fosse sensvel ao que desejava transmitir.
      - Ah! exclamou Katie, meneando a cabea afirmativamente. Certo! Voc acha que essas trs podem ser as pessoas para quem temos de testemunhar?
      - Acredito que sim, disse Cris, mantendo a voz baixa. Sabe, acho que devemos estar preparadas para alguma hostilidade ou coisa parecida. E no levar como afronta 
pessoal.
      - Boa dica. Conheo essas garotas e, s vezes, elas so bem ferinas. Ainda bem que voc sabe disso tambm, porque seria horrvel se elas ferissem os seus sentimentos 
logo na primeira noite.
      Meus sentimentos, Katie! Se estou tentando proteger os seus...
      Katie j marchava pelo corredor como se fosse uma cruzada.
      A Cris s restava segui-la. Como esperava, quando se aproximaram do quarto, as trs meninas lanaram a Katie um olhar que dizia: "O que  que voc veio fazer 
aqui?" Mas Katie parecia cega.
      - So essas as suas botas? disse Cris depressa, esperando afastar de Katie a ateno das garotas.
      Abaixou-se e pegou um dos fsseis pesades.
      - E servem em voc? indagou.
      - Fica um pouco grande. Mas assim posso calar com minhas meias de l. O que voc vai vestir amanh?
      Cris notou que as trs tinham virado as costas para Katie e se acercavam dela. Ficou nervosa, sentindo-se examinada. Era o centro das atenes, mas no de 
forma agradvel.
      - Bem, h... acho que roupa de esquiar. Vamos esquiar bem cedinho, no ?
      - s seis e meia da madruga, disse Katie. As trs ignoraram-na.
      - Seis e meia, repetiu Cris. Puxa,  cedo! Melhor a gente dormir um pouco. Acho que vou arrumar meu saco de dormir.
      Afastou-se devagar do casulo que se formara ao seu redor e foi caminhando em direo  porta.
      - Meninas? chamou Janet, descendo as escadas. Estou com tudo a para prepararmos os lanches de amanh. Vocs podem vir me ajudar?
      - Claro, respondeu Cris, ansiosa para sair dali. O que quer que faamos?
      Katie foi junto, subindo dois degraus de cada vez. As outras seguiram devagar.
      Janet explicou o sistema que arrumara no balco da cozinha.
      - Cada um ter um sanduche. Vamos tentar fazer dois sanduches com cada pacote de frios.
      - Eu no como carne industrializada, disse Tiffany, os braos cruzados.
      - Lembrei-me do ano passado, Tiffany. Trouxe Amendocrem e gelia especialmente para voc. A garota fez uma careta. Janet continuou dando instrues.
      - Temos que preparar um total de quatorze lanches. Aqui tem uma caneta hidrogrfica para colocar os nomes. No final do balco, perto dos saquinhos, tem uma 
caixa de mas. Aqui esto os biscoitos, e tem refrigerantes na caixa trmica. Alguma pergunta?
      - Vamos fazer uma linha de montagem, sugeriu Katie. Eu comeo aqui, passando a maionese no po. Cris, qur tal ser a distribuidora da carne e ir colocando os 
frios?
      - A distribuidora da carne, remedou Shannon.
      As trs garotas riram-se.
      Cris tomou o lugar e, corajosamente, disse:
      - Est bem, vamos fazer a distribuio da carne.
      Com m vontade, as outras trs comearam a escrever os nomes nos saquinhos e a colocar em sacos plsticos.
      Katie tentou abrir o vidro de maionese. A tampa estava emperrada, e ela fez muita fora, mas no conseguia. Shannon veio ver o que estava atrasando a linha 
de montagem.
      - Me d aqui, disse.
      Enfiou sua unha acrlica no lacre de plstico e rasgou-o. No mesmo instante, a tampa saiu, devido  variao da altitude. Uma golfada de maionese espirrou, 
sujando o rosto e a camisa de Katie.
      Era uma cena de dar gargalhadas e, sem pensar, Cris disse:
      - Tem de ser mais inteligente que o vidro de maionese, Katie.
      Todas as meninas romperam em gargalhada, enquanto Katie procurava toalhas de papel para limpar o rosto.
      Por que eu disse isso? De onde me veio essa idia? Eu no devia humilh-la na frente dessas garotas!
      As meninas riram-se mais do que merecia a piada. Pela expresso da Katie, Cris compreendeu que a ofendera. Ento se ps a trabalhar em silncio, colocando 
os frios em cada sanduche.
      Os lanches ficaram prontos em meio a muita conversa e instrues no solicitadas, por parte dos rapazes, que apareceram de repente e comearam a dar ordens 
especiais sobre seus sanduches. Cris continuou calada, com medo de que sua lngua soltasse mais algum comentrio inconveniente antes da noite acabar.
      Ao que parece, Janet pensou que o silncio de Cris era devido ao deboche dos rapazes, porque se aproximou e cochichou-lhe:
      - Amanh eles  que faro os sanduches, e voc se vinga dando ordens para eles.
      Cris sorriu, deixando que ela pensasse ser essa a razo do seu silncio. Terminou sua parte e saiu do grupo para ir ao quarto preparar-se para dormir. Katie 
entrou uns dez minutos mais tarde, e estendeu em silncio seu saco de dormir.
      - Katie? disse Cris, j de moletom, com o cabelo preso para trs e rosto lavado. Katie, me perdoe por aquilo. Eu no devia ter falado.
      - Tudo bem, replicou a outra sem levantar os olhos. No se preocupe. Eu mereci.
      - Mesmo assim eu no tinha direito de dizer aquilo, e estou arrependida. Por favor, me perdoe?
      Katie ergueu a vista lentamente. Um sorriso forado iluminou-lhe o rosto.
      - Claro que a perdoo. No pense mais nisso.
      Provavelmente, Cris teria ficado acordada um bom pedao de tempo, pensando na situao, mas estava to cansada, que, no momento em que encostou a cabea no 
travesseiro, ela j viajava noutro mundo.
      Um despertador indiscreto assustou-a. Correu os olhos pelo quarto s escuras. Levou um tempo para se lembrar de onde estava.
      - So cinco e meia, gente! anunciou Julie da outra cama. Quem quer tomar banho primeiro?
      - Eu sou a segunda, murmurou Katie. Quero dormir mais cinco minutos.
      - Eu vou! ofereceu-se Cris, percebendo que talvez fosse esta sua nica chance, com tanta gente para se arrumar.
      Tinha a sensao de que a cabea estava cheia de algodo. Os rudos tpicos da manh pareciam ecoar dentro dela. Foi rpida no chuveiro e tentou s-lo tambm 
com o secador de cabelo, porque temia que o rudo do aparelho acordasse o prdio inteiro. Embrulhada numa toalha, voltou ao quarto escuro e evitou tropear na Katie 
ao procurar a mala.
      - J terminou? murmurou Katie.
      -  todo seu, cochichou Cris. Se importa se eu acender a luz?
      - Pode acender, disse Julie ainda na cama. Temos de levantar mesmo.
      E, virando-se para Katie, acrescentou:
      - Espero que voc seja to rpida quanto sua amiga.
      Cris acendeu a luz, mas logo se sentiu desajeitada ali de p, s de toalha, com as outras garotas ainda na cama, olhando para ela. Tirou da mala um dos novos 
conjuntos de esqui. A cala preta e o casaco rosa e preto. Quando Katie voltou do banho, j estava totalmente vestida, pronta para sair.
      As outras garotas tambm tomaram o seu chuveiro. Katie sugeriu que ela e Cris ajudassem a preparar o caf da manh, j que estavam mais adiantadas do que as 
outras.
      Em cima, encontraram o Prof. Riley e a esposa colocando a mesa. No fogo, a chaleira apitava.
      - Bom dia, madrugadoras! disse o Prof. Riley. Vou ver sr os rapazes esto prontos. Voc duas podem se servir de mingau de aveia.
      - Tem suco e rosquinha tambm, acrescentou Janet. E chocolate e cider* de maa quentinhos, se quiserem aquecer o estmago antes de enfrentar o frio l fora.
      * Cider. suco de ma, servido quente no inverno. (N. da T.)
      Vinte minutos depois, todo mundo j comparecera  mesa do caf. Alguns comeram, outros s pegaram seu lanche e enfiaram uma rosquinha entre os dentes ao correr 
para o furgo.
      Sem dvida, fazia frio. S depois de oito tentativas o motor do veculo pegou. Todo mundo se encolheu nos bancos frios de vinil, esfregando as mos e expirando 
grandes tufos de vapor, que mais pareciam fumaa.
      Cris verificou na bolsa se levava os culos de neve, creme umectante para os lbios e a carteira. Descobriu que tinha tudo, menos coragem. Achou que, tendo 
chegado at ali, a adrenalina daria um impulso e ela tomaria coragem e ousadia. Mas s sentia frio e nervosismo.
      - Voc est uma gracinha, comentou Shannon atrs de Cris. Adorei seu conjunto.
      - Obrigada!
      Ento, como se Katie no estivesse ali, Shannon acrescentou:
      - E a Katie deve estar usando mais um dos seus conjuntos. Achei linda a blusa.
      Cris olhou para a Katie e de volta para a Shannon. S podia dizer um fraco "obrigada".
      Na meia hora seguinte, Cris imaginou vrias cenas. Disse a si mesma que muitas pessoas esquiam o tempo todo e nem todas quebram a perna ou brao. E algumas 
devem at mesmo gostar de esquiar, porque, aparentemente, voltam todos os anos. Se comeasse a ir depressa demais, sempre podia se sentar no cho. Parecia uma tcnica 
segura. Afinal de contas, qual o perigo de aprender a esquiar?
      At ela e Katie se arrumarem, calando as botas e pegando os esquis e as varas, j eram quase nove horas: a hora de comear a aula. Elas eram as nicas do 
grupo que ainda iriam aprender. Cris ficou satisfeita pelos momentos que estaria a ss com Katie, sem a presso das outras meninas.
      As duas tomaram o telefrico e foram at o local onde estariam os instrutores. Seguindo as placas de orientao, chegaram onde o grupo se encontrava, junto 
a uma encosta suave.
      O sol rompera atravs das nuvens, e tudo tinha um brilho fortssimo com o reflexo da luz sobre a neve. As garotas saram caminhando, cada uma carregando seus 
esquis, ouvindo a neve ranger sob seus ps. Ali havia mais nove alunos, de vrias idades, tipos e tamanhos.
      - Ol, vocs duas! gritou uma voz do bondinho que passava no alto. Divirtam-se!
      Olharam para cima e viram o Prof. Riley com a esposa a caminho do cume da montanha, j calando os esquis, balanando na cadeira de madeira.
      Cris acenou para eles. Katie, procurando os culos para proteger-se dos raios fulgurantes do sol, perguntou:
      - Era a Janet?
      Cris fez que sim e perguntou:
      - Voc acha que aprenderemos mesmo e criaremos coragem para subir numa daquelas geringonas at l em cima?
      - Estou contando com isso. E a, cad nosso instrutor de esqui?
      - Aqui mesmo, ressoou uma voz profunda atrs delas. Voltaram a cabea e avistaram um moo alto, bronzeado, o tipo de instrutor ideal com que toda garota sonhava.
      - Talvez eu no precise ter tanta pressa em terminar o curso, cochichou Katie.
      - Meu nome  Dawson, disse o rapaz para o grupo de novatos. Serei o instrutor hoje. A primeira coisa que precisam aprender  a colocar os seus esquis.
      Cris pensara que iria ser um procedimento simples, mas acabou sendo bastante complicado. Todos na turma fizeram pelo menos quatro tentativas antes de conseguir 
colocar os esquis corretamente. Segurando as varas de equilbrio, a classe esperou as instrues seguintes.
      Dawson comeou mostrando como faziam para parar. Demonstrou como se posicionava os esquis em forma de cunha, como se equilibrava e como enterrava as varas 
na neve para maior apoio. Em seguida, a classe aprendeu a subir o morro de lado. Todos comearam a praticar.
      - At aqui, tudo bem, disse Cris a Katie.
      - No sei de voc, disse Katie, mas acho que talvez eu precise de uma aula particular depois desta. Sabe, bem junto e aconchegante!
      - Excelente! exclamou Dawson. Parem todos onde esto! Agora tentem dar meia-volta, mantendo a posio dos esquis em forma de cunha. Lembrem-se, equilbrio. 
Permaneam firmes.
      Cris ergueu um esqui e o colocou de novo no cho. Mas acabou pisando em cima do outro. Ergueu de novo o p direito e endireitou o esqui. Tentou erguer o p 
esquerdo. No momento em que fez isso, o esqui direito comeou a deslizar para a frente. Ps depressa o p esquerdo para baixo. Agora os dois esquis comeavam a se 
mexer, ambos apontando para baixo, na direo de Dawson.
      - Socorro! Me segura, Katie!
      Katie estendeu a mo para a frente, tentando agarrar a perna dela, mas no conseguiu. A ponta da vara  que tocou nela, rasgando a cala nova da amiga.
      Cris continuou descendo o morro, e a velocidade aumentando.
      - Enterre as varas! Faa uma cunha com os ps! gritou Dawson.
      Ela tentou tudo ao mesmo tempo, mas, apavorada, perdeu o senso de equilbrio. Gritando, lanou-se para a frente, agitando os braos numa velocidade incontrolvel, 
at trombar com o Dawson.
      Parecia, inicialmente, que o p firme do instrutor bastaria para deter a queda. Mas o problema era que os esquis de Cris deslizaram entre as pernas dele, que 
estavam plantadas em formato de A. Embora a parte superior do corpo tivesse parado, as pernas continuaram deslizando, levando-a junto. No momento em que ela ia passar 
debaixo das pernas dele e escorregar morro abaixo, de costas, Dawson pegou-a pelos braos e puxou-a, colocando-a de p.
      - Voc est bem? perguntou, amparando-a nos braos, o rosto prximo ao dela.
      - Aaacho que sim!
      - Ei, Cris! gritou uma voz de cima do bondinho. Cris ergueu os olhos e viu Shannon agitando a mquina fotogrfica, a gritar:
      - Consegui capturar esse lance todo no filme!
      Dawson deu um sorriso.
      Cris retribuiu, sorrindo nervosa.
      - Desculpe.
      - No tem problema. Agora vou soltar voc e dar um passo ao lado. Tente andar de lado e voltar l onde o resto da turma est. Acha que consegue?
      Mais uma vez Cris deu uma risada nervosa e disse a nica coisa que veio  cabea:
      - Acho que tenho de ser mais inteligente do que os esquis, no  mesmo?
      - Voc est indo muito bem, disse Dawson, sem rir da sua piada boba. Agora, tente lembrar de se equilibrar. A!  assim que se vai. Est conseguindo.
      Cris subiu o morro de lado, com o resto da classe a olh-la. Quando conseguiu se colocar na fila, atrs da Katie, esta disse-lhe:
      - Atrevida!
      - No fiz de propsito! Voc sabe!
      - Voc nunca me convencer disso, sua ladra de instrutor de esqui, malandrinha!
      - Ei, sirva-se  vontade! Ele  todo seu! falou Cris, devolvendo o gracejo. Tente o mesmo que eu tentei. Se voc gosta de bater de frente numa parede de tijolos 
a toda velocidade, com todo mundo olhando, a minha tcnica d certo!
      - Talvez eu espere at a hora do almoo para ver se ele quer me fazer companhia e comer biscoitos e tomar chocolate. O que acha? Ser que ele gosta de biscoitos, 
ou de ma?
      Cris ajustou os culos e passou a mo no nariz dolorido.
      - Tijolos. Ele parece o tipo que gosta de tijolos e cimento. Acredite, estou falando do ponto de vista juntinho e aconchegante. Esse cara come tijolos.
      
      
      
      
      
      
      
      
Um Pouco de Antissptico Bucal Ajuda Muito!
11
      
      Antes do almoo, Dawson j tinha desaparecido e Cris e Katie estavam por conta prpria com seu lanche e as xcaras de chocolate quente. Depois de tirar os 
esquis e calcar, firmes, as botas no cho, foram para uma mesa de piquenique e comentaram os eventos da manh..
      - Posso dizer que voc foi a coelhinha de neve mais engraada que j vi? perguntou Katie.
      - Mas voc ajudou muito. Tentando me arpoar com sua vara de esqui! replicou Cris, passando o dedo no rasgo da cala de esqui. A finalidade das varas  equilibrar-se, 
no espetar o prximo.
      Katie riu-se e disse:
      - Voc devia ver a cara do Dawson quando voc estava prestes a trombar com ele! Voc viu?
      - No, eu estava preocupada em ficar na posio de "cunha", e depois s pude examinar o ponto detalhado de tric da blusa dele.
      - Bem juntinho e aconchegante.
      - Muito juntinho e aconchegante, repetiu Cris, rindo-se ainda. Eu me senti uma completa desastrada!
      - , e eu acho que voc...
      Cris interrompeu-a, concluindo:
      - ... parecia uma completa desastrada!
      - Como sabia que era isso que eu iria dizer?
      - Uma suposio maluca.
      - Imagino s a "chamada" hoje na TV: "Inocente instrutor de esqui fica aleijado pelo resto da vida por causa de uma aluna desastrada - no noticirio das onze."
      As meninas riram-se at o ar gelado fazer com que as lgrimas ardessem.
      - Tem de admitir que, para quem esquia pela primeira vez, no fomos to mal assim.
      - Ns no fornos mal?
      - Est certo. Voc no foi to mal. E eu superei um monte de temores. Estou disposta a tentar de novo, depois do almoo.
      - Vai ser fcil localizar o instrutor.  o cara que est com uma depresso na blusa com formato dos culos de Cris, disse Katie. E as duas caram de novo na 
gargalhada.
      -  provvel que ele saia correndo quando nos vir voltando!
      - Quando ele vir voc voltando para outra rodada. Eu, at agora, no tive nenhum encontro bem juntinho e aconchegante com o cara. Porm, o dia ainda no terminou!
      - Somos uma dupla de gozadoras de primeira, disse Cris. De manh eu o aterrorizo, na aula da tarde voc o apavora. Pode at ser que nos dem um instrutor novinho 
em folha amanh, e a gente comece tudo de novo.
      Quando Katie parou de rir, tirou o sanduche do saquinho e disse:
      - Ns devamos pelo menos ter insistido que fosse de peru. Hoje  Dia de Ao de Graas,* no se lembra?
      * O cardpio tradicional do Dia de Ao de Graas  peru assado, porque, quando os colonizadores deram o primeiro banquete (para o qual convidaram os ndios), 
serviram peru, que haviam caado. (N. da T.)
      -  mesmo! Ser que minha famlia j almoou? Provavelmente, no. Ns sempre costumamos fazer uma longa caminhada enquanto o peru est assando.  estranho 
no estar l. Feliz Dia de Ao de Graas, Katie!
      - O mesmo pra voc. E obrigada por ter vindo comigo nesse passeio. Est sendo exatamente como eu imaginava uma excurso para esquiar.
      - Katie, ainda no esquiamos.
      - Tudo a seu tempo, Cris. Ainda faltam dois dias.
      - Quantos instrutores de esqui teremos se eu continuar no mesmo ndice de estrago?
      Katie riu-se tanto, que quase se engasgou com o sanduche.
      Apesar de todas as brincadeiras, as duas foram bem na aula da tarde. Mas s 3:00 horas, Cris j estava a fim de entregar os esquis. Queria descansar as pernas 
doloridas.
      Encontraram o grupo em volta do furgo s 4:30 e humildemente escutaram os outros contando casos empolgantes de suas descidas no "Expresso da Sibria", lago 
Shirley e outras pistas mais perigosas. Por alguma razo, quando Cris anunciou que conseguira sua primeira descida na neve ningum ficou muito empolgado.
      O Prof. Riley levou-os a um restaurante mexicano, no lugar dos barcos, em Tahoe City, e o grupo esperou uns vinte minutos at conseguir uma mesa suficientemente 
comprida, que acomodasse a todos.
      A batata frita, servida  farta, foi imediatamente devorada, e todo mundo pediu pratos completos. Cris ficou meio desligada da conversa. Sentada entre Katie 
e o Prof. Riley, ela achou mais fcil escutar a barulheira toda do que tentar entrar na conversa. Parecia que todo mundo estava se divertindo muito.
      Ao voltarem para seus aposentos, no houve muita reclamao quando o Prof. Riley pediu que todos fossem dormir logo, de modo que j estivessem prontos para 
sair s 6:30 da manh seguinte.
      Cris se dirigiu para a cama, ansiosa para cair no travesseiro. Mas Shannon chamou-a ao outro quarto, onde as trs garotas estavam sentadas no cho, tirando 
as botas e massageando os ps.
      - Queremos que voc venha esquiar conosco amanh, disse. J combinamos tudo, e s a levaremos aos morros mais fceis, enquanto voc no estiver preparada para 
os mais difceis.
      - Eu creio que preciso continuar na aula de esqui, com a Katie amanh. Ainda no estou muito boa.
      - Est sim! Ns a vimos esquiando, e voc tem tarimba para tentar um morro maior.
      - , vocs me viram mesmo! Trombando com o pobre do instrutor. A propsito, depois que voc revelar, quero a foto e o negativo, hein!
      - Espero que fique boa, disse Shannon, rindo. Foi muito engraado!
      - E ento, voc vem conosco amanh? perguntou Jennifcr.
      - , talvez eu possa esquiar com vocs na parte da tarde. Amanh vou  aula, e depois eu e a Katie iremos com vocs na parte da tarde.
      - No estvamos precisamente convidando a Katie, disse Tiffany. Pensamos que seria mais adequado s com voc, porque formamos um grupo de quatro, o que facilita 
muito no bondinho...
      - Acho que vou ter de ver como vo as coisas amanh, respondeu Cris com cautela.
      No queria perder a oportunidade de ficar "por dentro" do grupo dessas garotas mas, ao mesmo tempo, no queria atrapalhar sua amizade com Katie depois que 
tinham passado um dia to divertido.
      - Est certo, concordou Shannon. A gente se encontra na lanchonete, depois da aula da manh, e a voc nos fala.
      Instantes depois, Cris comeou a soluar. A cada soluo sentia na boca um gosto de comida mexicana.
      - Posso tomar gua no seu banheiro?
      - Claro! Fique  vontade.
      Cris foi at a pia e bebeu da torneira, esperando deter o soluo. Notou um vidro de antissptico bucal na pia e perguntou:
      - Posso usar um pouco do seu antissptico? Ouvi dizer que gargarejar s vezes ajuda a curar o soluo.
      - Eu acho que... principiou Jennifer, mas Shannon a interrompeu.
      - Tudo bem, disse Shannon. No  nosso. Estava aqui quando chegamos, mas tenho certeza de que voc pode usar.
      Cris ouvia o murmrio da conversa das amigas ao fundo. Ps na boca um gole de antissptico, pendendo a cabea para trs, a gargarejar.
      De repente, sentiu a garganta pegando fogo. A boca toda queimava. Tossiu e cuspiu fora o lquido. Encheu a boca de gua fria para aliviar a queimao. Teve 
a impresso de que uma das garotas falou: "Eu no disse?"
      Puxou uma toalha para enxugar o rosto, mas continuou tossindo. A boca ainda queimava.
      - Que negcio  aquele?
      As trs se entreolharam. Tiffany saltou da cama.
      - Por qu? O que aconteceu? indagou ela, encaminhando-se para o banheiro.
      As outras a seguiram.
      - Tentei gargarejar com esse negcio, mas minha boca toda parece que pegou fogo! explicou, tossindo ainda. Nunca provei um antissptico com esse gosto antes.
      - O que ser? perguntou Tiffany. Abriu o vidro e cheirou o contedo.
      - No tem cheiro de nada. Talvez devamos p-lo debaixo da pia, onde o encontramos, sugeriu Tiffany. As duas amigas concordaram.
      - Deve estar muito velho, ou algo assim. Devamos ter deixado l.
      Tiffany estava prestes a pr de volta o vidro debaixo da pia, quando Katie apareceu.
      - Ah,  aqui que voc est! Estava sem saber aonde tinham ido.
      Vendo o frasco na mo de Tiffany, Katie perguntou:
      - Ah! Vocs esto dando uma festa de halitose e no me convidaram?
      - Tem alguma coisa errada nisso, disse Cris. Usei um pouco e tive a sensao de que ia morrer sufocada.
      -  mesmo? Deixa eu cheirar.
      - J cheiramos, disse Shannon depressa, amos recolocar onde encontramos. Acho que no devia mexer com isso, Katie.
      Sem titubear, Katie estendeu a mo e pegou o objeto da mo de Tiffany.
      - S vou cheirar, gente. Qual o problema? 
      Abriu a tampa branca e deu uma cheirada. Uuuummmm! Cheirou de novo.
      Cris notou que Shannon e as outras moas se entreolhavam. Estava "na cara" que censuravam Katie. Afinal a garota enfiou o dedo no vidro e provou o lquido.
      - Vodca! anunciou. No  antissptico bucal, nada! Algum encheu esse vidro de vodca e acrescentou anilina de confeiteiro para dar a impresso de que era antissptico.
      Cris estava chocada. Shannon olhou para ela e perguntou:
      - Quem faria uma coisa dessas? Estava aqui quando chegamos, no , gente?
      As outras concordaram, e Katie disse:
      - Acho que devemos entregar o vidro a Janet agora mesmo.
      - Boa idia! falou Tiffany, agarrando o frasco e fechando a tampa. Eu levo pra ela.
      - Vamos todas levar juntas, sugeriu Katie. Podemos ir agora mesmo.
      - Podemos deixar pra mais tarde, disse Tiffany com firmeza. Os rapazes esto l em cima, preparando os lanches pra amanh e no quero causar um escndalo.
      Cris achou o raciocnio legtimo, mas Katie no estava aceitando.
      - E da se os rapazes esto l? Acho que devemos levar agora.
      - Olha! disse Shannon em tom firme. Ns dissemos que vamos entregar, e vamos mesmo.
      Jennifer interps-se entre Shannon e Katie e acrescentou:
      - Katie, voc no est entendendo. Voc e Cris no vieram no ano passado. Ns trs viemos. Sabe, no ano passado tivemos alguns problemas. No queremos causar 
nenhum problema este ano.
      - Que espcie de problemas? perguntou Katie.
      - No ano passado, vieram vrios casais de namorados, e o Prof . Riley descobriu que estavam saindo de fininho  noite para ficar juntos, se entende o que quero 
dizer.
      - E que tem isso a ver com o fato de acharmos um frasco de vodca verde?
      - Voc no entendeu mesmo. No ano passado, o Prof. Riley descobriu o que estava acontecendo s 4:00 da madrugada. Ento, acordou todo mundo, nos fez arrumar 
a bagagem e nos levou de volta pra casa depois de havermos esquiado um dia s. Estragou nosso passeio.
      - Eu me lembro de ter ouvido falar disso.
      - Est vendo, ento? Se ele por um acaso pensasse que esta garrafa de vodca era nossa, podia cancelar o resto da excurso na mesma hora. Todo mundo ficaria 
superzangado conosco por fazermos um estardalhao desses por nada.
      - Acho que o melhor a fazer  ns mesmas despej-lo no ralo e no falarmos mais nisso, sugeriu Shannon.
      - tima idia, concordou Tiffany, afastando as garotas para fora do banheiro com uma das mos e segurando a garrafa com a outra. Se vocs me derem licena, 
preciso usar o banheiro.
      E antes que dissessem mais alguma coisa, Tiffany j tinha empurrado todas para fora, e agora elas estavam no quarto, olhando uma para a cara da outra.
      - No sei de vocs, disse Jennifer, mas eu estou morrendo de sono. Boa noite, Cris e Katie.
      - Boa noite, disseram as duas, saindo ao corredor rumo ao seu quarto.
      Katie acendeu a luz, e as duas garotas, que j estavam na cama, protestaram. Imediatamente, ela a apagou e as duas foram ao banheiro adjacente.
      Uma vez l dentro, e de porta fechada, Katie ligou a luz e cochichou:
      - Eu sei que elas esto mentindo.
      - Como  que voc sabe?
      - Eu sei. Foram elas que trouxeram a vodca. Tenho certeza!
      - Disseram que a encontraram no armrio quando chegaram, disse Cris. Se elas trouxeram, e era para ser um grande segredo, por que a deixariam em cima da pia?
      - Porque clamufaram naquele vidro com o corante verde. Nunca esperariam que voc fosse usar. Elas no hesitaram um pouco quando voc abriu o vidro?
      - No me lembro. Disseram que iriam despejar e acho que devemos acreditar nelas e lhes dar um voto de confiana. Se no jogarem fora, a a gente conta para 
a Janet. Eu no quero estragar todo o passeio por causa de um mal-entendido.
      - Voc confia demais, Cris. Voc est s preocupada com sua preciosa reputao junto a essas garotas. No  mesmo?
      - O que voc quer dizer?
      
- Quero dizer que voc quer tanto que elas gostem de voc que est disposta a acreditar numa mentira!
      - No estou! Estou disposta a dar-lhes o benefcio da dvida. Voc julga demais:  esse o seu problema!
      - Julgo demais, hein? explodiu Katie, fazendo bico. 
      Antes que Katie pudesse terminar, Cris colocou a mo no ombro da amiga e disse:
      - Espere um pouco. Me desculpe. Eu retiro o que disse. No quero brigar com voc. Nunca brigamos assim antes, Katie, e no quero brigar agora.
      Katie se acalmou, e seu rosto, que estava vermelho, voltou ao normal.
      - Voc tem razo. No devamos estar discutindo. O problema so essas meninas e no eu, nem voc.
      - Na verdade, disse Cris, respirando fundo e tentando se acalmar, acho que o problema  que devamos estar testemunhando pra elas e acabamos deixando que elas 
nos separassem.
      - Tem razo de novo, disse Katie, apagando todo o fogo dos olhos. Talvez voc tambm esteja certa ao dizer que julgo demais. Eu tenho a tendncia de dar opinies 
rpidas e duras sobre as pessoas.
      - Eu no devia ter dito nada. Me perdoe. E provavelmente voc tem razo quando diz que eu confio demais. Tenho a tendncia de ser meio inocente sobre as coisas. 
Quer dizer, quase bebi aquilo e me engasguei, mas nunca teria desconfiado que era vodca. Nunca provei nada desse tipo antes.
      - Sabe, acho que tem um jeito de descobrirmos se elas esto falando a verdade ou no.
      - Como?
      Katie fechou um pouco os olhos verdes que ficaram como os de um gato.
      - Escute, tenho um plano.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Traidora
12
      
      
      Na manh seguinte, Cris e suas colegas de quarto seguiram a mesma rotina do dia anterior. Depois que ela e Katie se aprontaram, foram para cima ajudar Janet 
a preparar o desjejum.
      Os rapazes apareceram primeiro, seguidos pelas outras garotas. A cozinha estava alvoroada com os preparativos do caf e a organizao do lanche que levariam.
      Cris olhou direto para Katie, que estava do outro lado da cozinha, e fez-lhe um aceno. Katie saiu do grupo, desaparecendo no andar inferior.
      - J pegou seu lanche, Cris? perguntou Janet, distraindo-a dos pensamentos fixos.
      - No. Obrigada. Vou pegar.
      - Tem mais um saquinho aqui, disse Janet, virando-o para ver o nome. Katie. Onde est a Katie?
      - Eu levo pra ela.
      Aparentemente, Shannon ouviu Janet perguntando pela Katie, e virou-se para Cris.
      - Cad a Katie? Desistiu de esquiar depois das aulas de ontem? Vai ficar na cama o dia todo?
      - No, disse Cris com o corao batendo forte. Ela j vem. Teve de descer por um instante.
      Shannon virou-se, cochichou alguma coisa para a Tiffany, saltou da cadeira e desceu a escada.
      Ah no! Katie, cuidado! A Shannon vai lhe pegar bisbilhotando!
      Cris foi depressa para o lado da cozinha e ligou a tomada do triturador de lixo. A conversa cessou imediatamente, e todos se viraram para ela.
      - pa! liguei o interruptor errado.
      Naquele instante Katie apareceu no topo da escada, correndo a vista em derredor, procurando Janet. Fazendo sinal para que Cris a seguisse, Katie foi at onde 
Janet se encontrava, sentada  mesa, e abaixou-se para dizer-lhe alguma coisa em particular.
      Janet levantou-se e foi com ela at o seu quarto. Cris esperou que passassem por ela e seguiu-as, mantendo-se atenta a Tiffany e Jennifer, que permaneciam 
sentadas  mesa, observando os movimentos de Katie.
      No momento em que Cris entrava no quarto de Janet, notou que Tiffany e Jennifer desceram as escadas. Janet fechou a porta e Katie, sem flego, comeou a falar. 
Parecia uma espi que acabara de voltar de uma misso secreta bem-sucedida.
      - Achei, disse  Cris. E eu estava certa. Elas no esvaziaram o vidro. No estava debaixo da pia. Foi por isso que demorei pra achar. Mas entendi o seu sinal. 
Obrigada!
      Janet interrompeu.
      - Voc se importa de voltar atrs um pouco e me explicar o que est acontecendo? Parece que perdi alguma coisa.
      Katie falava depressa, gesticulando com as mos e fazendo caretas apropriadas. Explicou que as "garotas riquinhas" estavam com um vidro de vodca no quarto, 
e que, mesmo tendo dito que iam jogar fora, a garrafa ainda estava l hoje de manh.
      - Ento voc achou a garrafa em cima da pia?
      - No; estava no boxe do chuveiro. Quase no achei, mas quando a Cris ligou o triturador de lixo, compreendi que era o sinal de que algum vinha vindo. Virei-me 
bem depressa e vi atravs da porta do boxe. Quase no consegui sair antes da Shannon chegar!
      - Por que no me disseram ontem  noite?
      - Elas falaram que iam despejar no ralo, e eu acreditei, disse Cris.
      Katie fez uma expresso tipo "eu-no-te-disse?"
      - No podemos deixar que isso passe de liso, disse Janet, principalmente depois do que aconteceu no ano passado. Vocs fiquem aqui. Vou chamar meu marido, 
e traremos as outras garotas tambm.
      Cris ficou sentada na beira da cama, com a Katie ao seu lado. As mos tremiam, e sentia que a garganta ia fechar de todo. Detestava encontrar-se em situaes 
desse tipo. Por que as outras no haviam cumprido a palavra e despejaram aquela coisa? Ser que era delas mesmo o vidro de vodca camuflado? Katie estaria certa sobre 
elas?
      O Prof. Rey entrou no quarto com Janet e as garotas, e fechou a porta. As trs amigas tambm se sentaram na cama. Cris olhava para as mos cruzadas no colo, 
no querendo fitar ningum.
      - Katie disse que vocs tinham uma garrafa de vodca no quarto ontem  noite. O que vocs tm a dizer sobre isso?
      Shannon, com jeito inocente e parecendo ofendida pela acusao, disse:
      - Era um vidro de antissptico bucal que encontramos embaixo da pia. Cris tomou um pouco e ficou tossindo; a a Katie entrou no nosso banheiro e disse que 
era vodca com anilina verde.
      - E era?
      - Como  que eu ia saber? Eu no provei, disse Shannon.
      - Onde est o vidro agora?
      - Despejamos e jogamos fora o vidro ontem  noite. No queramos nenhum mal-entendido como do ano passado.
      - Isso no  verdade! explodiu Katie. A garrafa ainda est no seu banheiro. Eu vi no boxe hoje de manh!
      - E o que voc estava fazendo no nosso banheiro?
      - Verificando se vocs haviam cumprido o que prometeram, o que no ocorreu.
       medida que continuavam as acusaes, Cris ia se sentindo pior. No sabia o que dizer.
      - Vamos todos l embaixo dar uma olhada no seu banheiro. Vamos resolver a questo de uma vez por todas, disse o Prof. Riley, abrindo a porta.
      Donald estava de p junto  entrada, aparentemente escutando a conversa.
      - Ol! disse quando o Prof. Riley abriu a porta, eu ia perguntar quanto tempo falta para irmos para o furgo. So quase sete horas.
      - Sairemos dentro de dez minutos. Com licena. Passando pelo esquiador afoito, o Prof. Riley conduziu as garotas para o andar de baixo.
      Os sete se espremeram dentro do banheiro.
      - Est bem, Katie, onde voc viu o vidro de antissptico?
      - No boxe. Atrs daquela porta de vidro.
      O Prof. Riley abriu a porta do boxe e pegou um vidro cheio de lquido verde. Mostrou para a esposa e leu o rtulo: Herbal Garden Shampoo.
      - Voc usava essa marca, no , Janet? Ela concordou e perguntou:
      - Quem sabe voc deve tirar a tampa e cheirar.
      - No era xampu, protestou Katie. Era antissptico bucal. Um vidro grande, e estava a hoje cedo.
      Cris observou que as trs garotas se entreolharam, dando de ombros e com ar de inocncia.
      O Prof. Riley tirou a tampa do xampu e enfiou o dedo. Passando os dedos uns nos outros at formar espuma, cheirou o lquido e disse:
      - Isso aqui  xampu, Katie. Cem por cento xampu.
      - Eu sei, disse Katie, exasperada. Estou falando de antissptico, no de xampu. Olhe nos armrios e nas malas. Estava aqui h vinte minutos.
      - Cris, disse o Prof. Riley, virando-se para ela. O que foi que voc bebeu ontem  noite?
      Sentindo os olhares de todos como flechadas, Cris disse:
      - Na verdade, no bebi nada. Estava tentando gargarejar.  que eu estava com soluo e entrei pra tomar gua. Vi o vidro na pia e perguntei s meninas se podia 
usar um pouco.
      - E elas no tentaram impedir voc ou dizer que no era de gargarejar?
      - No, quer dizer, acho que no. No me lembro. Pus s um pouquinho na boca, e ela parecia estar pegando fogo, ento cuspi e bochechei com gua.
      - E o soluo dela parou, disse Shannon, sorrindo.
      - E voc no sabe se era vodca ou no? perguntou Janet.
      - No, nunca provei vodca ou nada parecido, e ento no sabia o gosto.
      - Foi a Katie que bebeu um pouco e disse que era vodca, acrescentou Shannon.
      - Eu no bebi. Experimentei com o dedo porque no tinha cheiro.
      - Est bem, est bem! disse o Prof. Riley, pondo o xampu de volta perto do chuveiro. E onde est essa garrafa de antissptico agora?
      - Ali, disse Shannon, apontando para o lixo. J que a Katie fez um estardalhao ontem  noite, despejamos no ralo e jogamos fora o vidro.
      O Prof. Riley retirou o frasco vazio do lixo e cheirou.
      - Nada, disse, entregando a tampa branca para Janet. No tem cheiro de nada. No sei o que tinha aqui. Janet cheirou a tampa e disse:
      - Parece que esto fazendo uma tempestade por nada. Elas j o jogaram fora e  isso que importa. No sou psicloga, mas eu diria que talvez vocs, meninas, 
estejam discutindo por causa de outra coisa, como cimes ou amizades. Podemos esquecer o incidente todo e terminar o passeio sem mais problemas?
      - Concordo, disse o Prof. Riley. Fizemos o grupo esperar por causa disso. Aprecio sua preocupao, Katie, mas parece mais que algum esqueceu aqui um vidro 
de antissptico. Vocs chegaram e usaram, e tinha um gosto ruim. Despejaram o lquido e jogaram fora o vidro e fica por isso mesmo.
      - Mas, Prof. Riley, disse Katie, apavorada. Eu sei o que vi. No pode simplesmente esquecer tudo assim. A Cris me apoiar. Estou dizendo a verdade.
      O Prof. Riley parou um instante e olhou para Cris. Ela gelou.
      - Voc, sinceramente, acha que era vodca?
      Todo mundo a fitava. Tudo que ela conseguiu dizer foi:
      - No sei.
      Virando-se para Katie, ele continuou:
      -  melhor voc parar de forar a barra. Ningum quebrou nenhum regulamento. Se quiser insistir, talvez terei de perguntar como  que voc, menor de idade, 
que, legalmente, no pode ingerir bebida alcolica, conhece o gosto de vodca.
      E, apontando para as trs garotas  sua frente, continuou:
      - E se eu descobrir que vocs trouxeram bebida alcolica nesta viagem, precisam saber, jovens, que as consequncias para as trs sero mesmo desastrosas. Entenderam?
      - Sim, senhor! responderam quase em unssono, com um ar srio.
      - Est bem. Vamos para o furgo e zarpar. A neve est derretendo enquanto ficamos parados aqui, discutindo no banheiro.  uma loucura!
      Todos saram. Cris foi ao quarto pegar sua bolsa e seu casaco para passar o dia. Katie veio logo atrs.
      - Traidora! murmurou baixinho ao entrar no quarto e bater a porta.
      Cris sentiu o corao apertado. Por que Katie lhe dizia uma coisa dessas? Comeou a chorar e encarou a amiga irritada.
      - Por que voc no me defendeu? indagou ela, comeando a chorar tambm. Voc me fez parecer uma jumenta na frente de todo mundo, e sabe que eu estava falando 
a verdade! Por que no disse para eles que era vodca?
      - Katie, s podia dizer a verdade. Eu no sei o que era! No conheo o gosto de vodca. No estava querendo trair voc! Como voc me diz uma coisa dessas? Eu 
s disse a verdade!
      Katie limpou os olhos com as costas da mo. Com movimentos rpidos e bruscos, tirou a blusa de l branca e preta e a cala de esqui.
      - No estou com vontade de usar essas roupas hoje, disse, jogando-as na cama de Cris.
      Agarrando um jeans e uma malha vermelha, saiu bufando, batendo a porta, na direo do banheiro.
      A vontade de Cris era de se jogar sobre a cama e chorar a no poder mais. Mas ouviu o Donald gritando no corredor que todo mundo se apressasse porque j eram 
7:30. Juntando suas coisas, como que anestesiada, limpou os olhos e foi para a porta.
      
      
      
      








Culpada
13
      
      Cris passou o resto da manh aprendendo a esquiar em companhia da Katie. Mas no conseguiram falar uma com a outra. Katie?
      Como  que posso estar a poucos metros da minha melhor amiga e sentir-me to s como nunca estive em toda a minha vida? Esta situao  a mais horrvel, pavorosa, 
alienante que j experimentei! Que  que vou fazer? Como posso acertar os ponteiros com a Katie?
      Com frio, molhada e sem conseguir concentrar-se, Cris pediu licena para sair da aula e foi caminhando sobre a neve at a sede social. Foi ao armrio e tirou 
a bolsa,  procura de um leno de papel para assoar o nariz. No tinha. O banheiro estava perto, e, satisfeita, ela percebeu que havia uma caixa de lenos, perto 
das toalhas de papel.
      Cris assoou o nariz e pegou mais alguns lenos. Estava prestes a sair quando ouviu seu nome.
      Num dos compartimentos, algum estava dizendo:
      - Foi bom a Cris estar do nosso lado, seno o Prof. Riley podia ter acreditado na Katie.
      -  mesmo, respondeu uma voz em outro compartimento. Aquela bisbilhoteira quase estragou tudo. Voc tem certeza que ela est totalmente do nosso lado?
      - Vou descobrir isso ainda hoje. Ela deve esquiar com a gente hoje  tarde. Vou ser supereducada com ela s para cimentar a amizade.
      A porta de um dos cubculos se abriu, e Cris gelou, pensando que fosse uma das meninas. No era. Com o corao batucando, ela entrou num banheiro vazio e escutou 
o resto da conversa.
      Ouviu outra porta abrir e, pelo som das vozes e da gua corrente, Cris imaginou que pelo menos uma das garotas tinha sado e estava perto da pia, lavando as 
mos.
      - Voc acredita que a Cris nunca provou bebida alcolica antes? Quer dizer, voc viu? Ela fez o jogo de inocente melhor do que ns!
      - Sei l! Pode ser que estivesse dizendo a verdade. No sei. Pelo menos no fica a querendo a verdade a todo custo, como a Katie.
      - Acho que no precisamos nos preocupar mais com a Katie. A voz fez uma pausa e depois exclamou:
      - Credo! Por que vocs no me disseram como meu cabelo estava horrvel? Voc trouxe escova?
      - Tem uma no meu armrio. Vamos l. A gente pega o nosso lanche, e eu pego a escova pra voc.
      - Ento, acha que no vamos mais ter problemas com a Katie?
      - Como disse a Cris naquela hora que a maionese espirrou: "Tem que ser mais inteligente do que o frasco de antissptico, Katie!"
      - Ento estamos seguras.
      E elas saram do banheiro, dando risadinhas abafadas.
      A Katie tinha razo. Era vodca mesmo! E parece que elas ainda esto com a garrafa! O que  que devo fazer?
      Parecia que o melhor a fazer era ir encontrar-se com as garotas na hora do almoo, conforme haviam planejado. At l ela certamente conseguiria pensar numa 
forma de confront-las.
      Jogando a bolsa no ombro, Cris se encaminhou para o ponto de encontro combinado. As outras ainda no tinham chegado. Cris resolveu ficar fria. Procurou um 
lugar para sentar-se, para comer o lanche. Sentou-se, pois, e abriu a bolsa, descobrindo ento que no trouxera o lanche. Tinha ficado no apartamento.
      No acredito! Este dia est cada vez pior. O que mais vai acontecer?
      A primeira coisa a acontecer depois disso foi que Shannon, Tiffany e Jennifer apareceram. Ela ainda no estava preparada para encar-las.
      - Ol! Esqueceu o lanche. Eu o vi na cozinha e trouxe pra voc. Est com fome?
      Cris sorriu e pegou o pacote.
      - Pegou o da Katie tambm?
      - No. Tem certeza que ela esqueceu o dela? S vi o seu no balco. Eu j lhe disse que gostei muito do seu casaco? Essa cor fica tima em voc.
      Cris sabia que o seu lanche estava ao lado do da Katie. No estava disposta a continuar "jogando" com essas meninas.
      - Que pista voc quer experimentar primeiro, Cris? perguntou Tiffany. Quer uma fcil ou vai encarar a mais alta?
      - Ainda no tenho certeza. Ainda preciso assistir  sesso de treinamento da tarde.
      - E voc vai? Para que esperdiar tempo ali, quando podia estar esquiando de verdade? perguntou Shannon.
      - , concordou Jennifer. Vem com a gente.
      Cris deu uma mordida no sanduche para no ter de responder e encolheu levemente os ombros.
      No posso fingir que no sei o que disseram. Eu devia ir procurar a Janet e o Prof. Riley, mas a essas meninas nunca mais falariam comigo e eu me sentiria 
mal demais. Continuou mastigando devagar. Mas o que  que estou pensando? E eu l me importo com o que elas pensam de mim? No; eu me importo com o que a Katie pensa 
de mim. E acho que no final o que importa  o que Deus pensa de mim. Tenho de dizer alguma coisa. Senhor, me ajude!
      - Shannon, principiou ela, sem saber direito o que dizer, posso lhe fazer uma pergunta? Posso perguntar sua opinio sobre uma coisa?
      - Claro!
      - Na verdade eu gostaria que todas vocs me dessem um conselho. Estou com um problema.
      - Comea com "K" e termina com "atie"? perguntou Tiffany.
      - S vou dizer que  sobre uma conhecida minha, continuou Cris sem ter muita certeza do que iria dizer.
      Ps-se a pensar rapidamente e notou que as garotas deviam adorar dar conselhos. Tinham parado de comer e estavam esperando, atentas, para ouvir o problema 
da Cris.
      - Essa garota foi mais ou menos convencida a comprar uns cosmticos de uma amiga sua que vendia essas coisas, explicou.
      - Ns todas j fizemos isso, no  mesmo? disse Jennifer, e as outras concordaram.
      - Bom. Ela dissera a essa garota que os produtos eram timos e, se ela no gostasse, poderia devolver e receber o dinheiro de volta. Ento ela experimentou, 
e no lhe pareceram grande coisa. Mas a moa que os vendeu pra minha amiga ficava elogiando-a e procurando faz-la sentir-se bem sobre a maquiagem.
      - Geralmente  assim mesmo. E da? O que aconteceu?
      - Na verdade, ela descobriu que a companhia de cosmticos estava sendo investigada por fraude. A amiga dela jurou que nada disso era verdade e at mesmo tentou 
vender-lhe mais coisas. Ela acreditou na amiga e comprou um monte de coisas, e at procurou convencer algumas das suas conhecidas de que o produto era bom.
      - O que aconteceu?
      - Sem querer, essa garota ouviu uma conversa e descobriu que a amiga dela tinha mentido. A amiga sabia o tempo todo que a companhia estava mesmo sob investigao 
e que os cosmticos eram de pssima qualidade. Estava enganando minha amiga o tempo todo.
      - Que baixaria! exclamou Tiffany. Eu faria ela devolver todo o dinheiro e nunca mais falaria com ela!
      - Eu processaria a companhia, disse Shannon.
      -  por isso que eu queria o seu conselho. Essa minha amiga est pensando em procurar as autoridades e denunciar o caso. S que ela no quer perder a amizade 
da moa que mentiu pra ela e a usou. Como  que ela deve conduzir as coisas para que sua amiga no se aproveite mais dela e ao mesmo tempo consiga revelar a verdade?
      As garotas se entreolharam, e Shannon disse:
      - Deixa a amiga pra l! Ela deve ir direto s autoridades, e justia seja feita!
      - Concordo. Que espcie de amiga  essa que faz uma armadilha pra ela e continua a agir mesmo quando sabe que  uma mentira?
      - Amigas como vocs, deixou Cris escapar.
      - Do que voc est falando? perguntou Shannon.
      - , que negcio  esse? Voc no est falando de maquiagem, est?
      Cris olhou direto para as garotas e disse:
      - Sem querer, ouvi vocs conversando no banheiro agora h pouco. Sei que havia vodca ou alguma bebida mesmo naquela garrafa de antissptico, que era de vocs 
e que vocs ainda no jogaram fora, falou com voz tremida. E no sei o que fazer. Se eu fosse seguir os conselhos que me deram eu deveria ir direto ao Prof. Riley 
e descartar vocs todas como amigas, porque me enganaram, mentiram e me usaram.
      - Nunca mentimos e no armamos nenhuma arapuca pra voc, disse Shannon. Foi voc que pegou o antissptico. Ns no o demos a voc. Deixamos que tudo seguisse 
seu curso natural. Nenhuma de ns mentiu.
      - Voc est dizendo sinceramente que encontraram o frasco debaixo da pia?
      - Bem, no. Tivemos de inventar essa parte. Mas fora isso, no mentimos.
      - Se a Katie no tivesse vindo bisbilhotar, acrescentou Tiffany, tudo teria se resolvido e ningum ia se machucar.
      - Bem, eu me machuquei. E vou ser sincera com vocs. No sei o que devo fazer. Seu conselho era que eu fosse direto s autoridades e acabasse com a amizade. 
Talvez seja a melhor coisa a fazer, mas no quero acabar nenhuma amizade, nem a da Katie, nem a de vocs.
      Cris percebeu que iria romper em lgrimas ou vomitar, ou ambas as coisas. Pediu licena e buscou refgio no banheiro. Saiu quinze minutos mais tarde, aps 
ter chorado sozinha e ter lavado a alma.
      No tinha a menor vontade de voltar para a pista de esqui. Juntou seu equipamento e examinou os olhos inchados no espelho. Dirigiu-se  sede social e foi em 
direo  enorme  lareira.
      Havia uma poltrona vazia perto de uma janela alta. Sentou-se nela com os ps virados para o fogo. L fora, o sol da tarde  se escondia por detrs de um bloco 
de nuvens que mais pareciam lenis de neve, esperando o sinal para despej-los sobre a terra.
      Ento, como se Deus tivesse dado o sinal, alguns "filhotes" de neve comearam a cair em busca de um novo lar. Alguns foram adotados pelos pinheiros sempre 
verdes que esticavam os braos para receb-los. Outros pegaram carona nos ombros de esquiadores corajosos que desciam sobre a neve at a sede social. Mas a maioria 
dos silenciosos flocos encontrou morada nas encostas das montanhas, onde se juntou aos que a tinham precedido.
      De alguma forma, tudo tem um propsito e um lugar, pensou Cris, acomodando-se melhor na poltrona, vendo o mundo se embranquecer mais. A nica coisa que me 
conforta nessa confuso toda  que Deus conhece o princpio e o fim de tudo. Eu sei que ele se interessa pelo que estou sentindo, e sei que, de alguma forma, ele 
sempre opera tudo para o seu bem. Tudo tem um propsito.
      - Desistiu? perguntou uma voz atrs dela.
      Cris voltou a cabea e viu o Prof. Riley com uma xcara de chocolate quente.
      - S fazendo uma pausa, disse Cris. L fora me parece frio demais.
      - Est esfriando, e a visibilidade l em cima piorou. Se o resto do grupo vier tambm ficar em volta da lareira,  melhor voltarmos ao apartamento. Podamos 
alugar uns filmes e fazer pipoca.
      - Parece uma idia legal, disse Cris, sorridente.
      - Foi bom eu encontr-la sozinha por um instante, disse o Prof. Riley. Estive pensando numa coisa e queria consult-la.
      - timo! Eu tambm queria conversar com o senhor sobre uma coisa.
      - Percebi que quando cheirei a tampa do vidro de antissptico hoje cedo, no tinha nenhum cheiro. Se estivesse cheio de antissptico, seria um forte odor de 
hortel. Eu uso aquela marca e ela tem gosto bem forte. Cris, voc acha que h alguma chance de que a garrafa tivesse mesmo alguma bebida alcolica?
      Cris remexeu-se na poltrona e sentiu que era a hora de contar tudo Naquele instante ouviu a voz de Katie vindo de trs.
      - Prof Riley, sua esposa est procurando o senhor. Aparentemente, a garota no percebera que Cris estava na poltrona, porque, ao not-la, acrescentou:
      - Ah' Eu no sabia que o senhor estava ocupado.
      - Diga  Janet que vou j para l. Cris estava para me dizer uma coisa.        .
      - Ento  melhor eu deixar os dois a ss. Cris percebeu a amargura no tom da voz de Katie. Ela ainda estava magoada, e Cris sabia que tinha todo direito.
      - No  fique aqui, Katie. Quero que voc tambm oua  que vou dizer.
      Katie ficou parada perto, evitando olhar diretamente para a amiga Esperando que ela falasse, assumiu um ar de quem diz: "Eu vou ficar firme!"
      - A Katie tinha razo, falou Cris. Havia vodca no vidro de antissptico. E provavelmente, estava mesmo no boxe do chuveiro de manh, como ela disse.
      - timo! interrompeu Katie, jogando as mos para o alto Agora voc est do meu lado. O que provocou a grande virada? As novas amigas despejaram voc de repente?
      Cris continuou olhando para o Prof. Rey, continuando a explicar que tinha falado a verdade durante o confronto Smceramente no sabia o que era aquilo na noite 
anterior. O que a fizera mudar de idia foi a conversa das moas que ela ouvira.
      - Eu no estava querendo desacreditar voc hoje de manh, Katie S queria dizer a verdade, disse Cris, olhando-a fixamente.
      Afinal Katie tambm fitou-a. No momento que os olhos da amiga encontraram os seus, Cris murmurou:
      - Desculpe!
      - No; a culpa  minha, disse Katie em voz fraquinha. Eu no devia ter duvidado de que voc estivesse falando a verdade. Voc me perdoa por t-la chamado de 
traidora?
      - Claro! E voc me perdoa por no ter tido mais coragem de ficar do seu lado quando contava as coisas?
      -  claro! replicou Katie, abaixando-se e dando um abrao na Cris.  preciso muito mais que isso pra acabar com dois tesouros peculiares como ns.
      - Bem, se vocs duas conseguiram acertar as coisas, vou procurar a Janet, e vamos esclarecer essa coisa toda. Muito obrigado s duas, por sua honestidade. 
 surpreendente o quanto  difcil hoje em dia encontrar um colegial que diz a verdade. Minha opinio sobre ambas subiu cem por cento. Queria que houvesse mais estudantes 
iguais a vocs.
      
      
      
      
      
"S Queria Ter Certeza de que Voc Estava A!"
14
      
      - Cris, acorde! Era sua me chamando baixinho. Tem visita para voc! Cris virou-se no sof e apertou os olhos, tentando ver a me.
      - Eu dormi? Que horas so?
      - So quatro horas. Voc dormiu logo que chegamos do culto. Sabe de uma coisa? Foi muito bom voc ter voltado da excurso um dia antes, ou no aguentaria ir 
para a aula amanh.
      Cris sentou-se e ajeitou no corpo o suter vermelho.
      - Eu desmaiei, hein? Voc disse que tem algum a?
      - Sim. Acho que talvez voc v ficar surpresa.
      - Quem ? perguntou a garota, soltando o cabelo do clipe de rabo-de-cavalo e passando nele rapidamente os dedos  maneira de um pente. A Katie est a com 
o Glen? Ela estava na expectativa de ele passar na casa dela hoje  tarde.
      - Levante e venha ver. Eles esto l na frente, conversando com seu pai.
      Cris levantou-se, calou os sapatos e passou um dedo debaixo de cada olho para o caso de a maquiagem ter manchado enquanto dormia. Abrindo a porta da frente, 
foi  varanda. Ouviu a voz do pai conversando com algum no canto da casa, mas no deu para ver quem era. Deu mais uma arrumada no cabelo e ajeitou o suter. Desceu 
a escada e foi para o lugar de onde vinham as vozes.
      - Rick? Douglas? Ol! O que  que vocs esto fazendo aqui?
      - Pare a! brincou Douglas.  a "Bela Adormecida", segunda parte! E voc no est com cara de coelhinha de neve beijada pelo sol! Divertiu-se?        
      Douglas, um amigo que conhecera na praia havia dois anos, sem o menor constrangimento aproximou-se e deu-lhe um grande abrao na frente do pai e do Rick. Cris 
nunca conseguira entender se o rapaz no tinha mesmo desconfimetro, ou se era to autntico, que, nada tendo a esconder, agia por impulso.
      Cris aceitou o entusistico abrao e depois, como lhe parecesse certo, virou-se para o Rick. Ele hesitou um momento, mas deu-lhe um abrao neutro, de lado, 
sem nada dizer.
      No momento em que o Rick passou o brao em volta dela, Cris sentiu o cheiro da sua colnia. No sabia a marca, mas era o mesmo perfume que ele usara nas vezes 
em que sara com ela.
      Imediatamente ela sentiu um aperto no estmago e o corao cheio de sentimentos confusos. Pelo jeito do Rick, parecia que ele se sentia constrangido de toc-la 
na frente do seu pai, ou ento a visita fora idia do Douglas.
      - Sim, replicou Cris, tentando concentrar-se no que o Douglas perguntara. A excurso foi bem. No tima, mas boa.
      - Se vocs me derem licena, disse o pai, erguendo a chave de fenda, eu estou tentando consertar a poltrona reclinvel. 
      Pobre pai! Ser que dessa vez a cadeira vai cooperar com ele?
      - Seu pai explicou que vocs tiveram de voltar um dia antes porque vem uma tempestade de neve, e no queriam ficar ilhados l, disse Douglas, encostado no 
lado da sua camioneta amarela, estacionada logo ali.
      - Essa foi uma das razes.
      Cris relatou rapidamente o confronto que tivera com as trs garotas por causa da vodca, e como elas acabaram confessando que a tinham levado secretamente, 
com planos de fazer uma "farra" na ltima noite.
      - Parece que o clube de esqui teve um problema semelhante no ano passado com uns casais que saam aps a hora de recolher.
      Rick deu uma risadinha e, entrando na conversa pela primeira vez desde que chegara, indagou:
      - Aquelas trs mencionaram que foram elas que saram com rapazes no ano passado?
      - No, elas no falaram isso.
      Lanou um olhar cauteloso para o Rick. Era estranho estar com ele assim de repente sem a menor indicao de que iria v-lo. Ele parecia o mesmo: alto, ombros 
largos, cabelo escuro ondulado e olhos cor de chocolate. Mas estava tambm um pouco diferente. Ser que mais reservado, ou estaria zangado?
      Havia muita coisa que ela queria dizer, mas no era possvel com o Douglas ali perto. Sobretudo sentia-se meio sem jeito porque o Douglas era o melhor amigo 
do Ted, e agora Douglas e Rick estavam morando no mesmo apartamento e frequentando a mesma faculdade, a Estadual de San Diego.
      O que mais surpreendia Cris era que neste momento o Rick no parecia exercer aquele vigoroso domnio que tivera sobre ela no passado. Mas gostaria imensamente 
de ter a amizade dele. Queria que fossem amigos.
      - Estamos indo de volta para a faculdade, e passamos aqui para pegar algumas coisas do Rick. Eu lhe disse que no poderia estar assim to perto de voc sem 
dar uma passada para dar-lhe um "al"! Voc est tima! Fico contente que esteja indo to bem. Gostei do seu cabelo assim.
      Sem graa, Cris passou as mos de novo em sua juba. Sentia em si o olhar do Rick enquanto fitava o Douglas. Rick sempre lhe dizia que ela ficava bem de vermelho. 
Era engraado que por acaso ela estivesse usando uma blusa vermelha justamente no dia que ele resolvera aparecer de novo na sua vida. Pensou na pulseira de ouro 
"Para Sempre" que trazia no pulso direito. Ser que estava aparecendo sob a ponta da manga?
      Ser que o Rick a notaria? E isso teria importncia para ela? Ser que fora ele quem pagara para que ela pudesse recuper-la?
      - Vocs querem entrar? Querem tomar alguma coisa?
      - Precisamos ir andando. Temos de estar de volta at s seis para a reunio do grupo "Amigos de Deus".
      - "Amigos de Deus"? repetiu Cris, tentando lembrar onde ouviu a expresso.
      - Sim, "Amigos de Deus", disse Douglas com um sorriso. Gostou do nome? Fui eu quem o escolheu.  um grupo de jovens cristos que se rene no nosso apartamento 
toda semana. Eu tenho dado os estudos, mas hoje o Rick vai dirigir pela primeira vez, explicou o rapaz, dando-lhe um soco brincalho no brao. T ficando um pouco 
nervoso, hein, colega?
      Rick devolveu-lhe o gesto e o ritual esportivo masculino comeou. Cris olhou para os dois "garotinhos" de mais de dois metros de altura que lutavam um com 
o outro na rampa de entrada de sua casa.
      Era bom ver o quanto o Rick e o Douglas se davam bem. Na condio de "melhor amigo" do Douglas ela s vira o Ted. O Ted e o Rick eram to diferentes, no entanto 
Douglas parecia se dar bem com ambos.
      Como a amizade entre rapazes  diferente da amizade entre garotas!
      Rick parecia sair vencedor dessa rodada, o que no era surpresa para Cris. Certamente algumas coisas nunca mudam.
      - Fiquei to contente de vocs passarem por aqui! Pena no poderem ficar mais, disse, lamentando v-los irem embora.
      Teria adorado entrar na camioneta e ir com eles  reunio dos "Amigos de Deus", em San Diego. Seria bom ouvir o Rick dirigir um estudo bblico e ver de primeira 
mo o que estava acontecendo em sua vida. Ser que ele estava mesmo levando a srio as coisas de Deus?
      - Temos de nos encontrar e fazer alguma coisa juntos no recesso do Natal, disse Douglas. Voc vai estar por a, Cris?
      - Sim, eu estarei por aqui. Precisamos mesmo nos encontrar. Seria muito legal!
      Douglas deu-lhe outro abrao e sentou-se no banco da frente da camioneta.
      - Voc pode vir nos visitar a qualquer hora. Se no puder vir, pelo menos mande uns brownies!
      Cris riu-se.
      - Estou falando srio, disse Douglas. Lembra daqueles bwwnies que voc fez para mim e pro Ted no Natal passado? Foram os melhores da minha vida!
      - Verei o que posso fazer, disse Cris, sorrindo. Mas espere! No tenho o seu endereo.
      Douglas mexeu embaixo do assento da camioneta e tirou um pacotinho vazio de batatas fritas.
      - Aqui, disse, entregando o papel para o Rick junto com uma caneta que pegara no porta-luvas. Escreva o nosso endereo para ela.
      Rick rabiscou o endereo. Quando o entregou a Cris, ela estendeu a mo direita para peg-lo, e sua pulseira ficou totalmente  vista.
      Olhou o rosto do rapaz  busca de sinais de que ele tivesse notado. Parecia fitar a jia, mas a nica mudana que notou foi o canto dos lbios que se ergueram 
um pouquinho. Ele no a olhou, nem disse nada.
      Sem um abrao de despedida, Rick entrou na camioneta do lado do passageiro. Pegou os culos, colocou-os e descansou o brao na janela do carro.
      - Tchau! disse Cris, triste por v-los irem embora depois de uma visita to rpida. Fiquei contente com a visita. Fiquem mais tempo da prxima vez, est bem?
      Douglas deu partida no motor. Antes de dar marcha a r para sair para a rua, falou de novo:
      - No esquea os meus brownies!
      - Est certo, respondeu ela, balanando o invlucro de fritas com o endereo deles. Prometo mandar uns pra vocs.
      Rick fez um aceno com a mo aberta. Eles deram r e foram embora. No dava para ver a expresso do seu rosto porque ele usava culos que lhe encobriam os olhos. 
Muito perturbador.
      O encontro deixou-a cheia de perguntas. O Rick no parecia o mesmo cara dominador de antes. No parecia estar zangado. Ser que estava ferido? Ser que achava 
difcil estar perto dela com o Douglas junto, j que fazia tanto tempo que no conversavam? Ele sentia o mesmo que a Cris, que as coisas no estavam completamente 
resolvidas entre eles?
      Resolveu entrar em casa e telefonar para Katie e saber sua opinio.
      - Ela no est, disse o irmo de Katie, quando Cris ligou.
      - Por favor, diga a ela que eu telefonei e que quem conversar com ela amanh na escola.
      No dia seguinte, quando Cris pegava o lanche no balco da cozinha, a caminho da escola, sua me lhe disse:
      - Cris, leva o aviso do correio e pega o seu pacole. No tive tempo de ir durante o final de semana.
      Cris tinha se esquecido do pacote misterioso de nmero 96817. Pegou o aviso, colocou-o na bolsa e correu porta afora.
      Na aula, a professora devolveu as redaes "A Verdadeira Amizade". Cris tirou um 9. Nela havia um bilhete: "Tente se esforar um pouco mais na estrutura das 
sentenas."
      Isso no devia ter sido to difcil! Por que me  to difcil colocar os sentimentos em palavras? Acho que no adianta muito eu receber nota pela estrutura 
das sentenas, com descaso pelo contedo.
      A professora deu-lhes os ltimos quinze minutos do perodo para trabalharem na prxima tarefa de leitura. Cris comeou a ler, resolvida a terminar a tarefa 
em classe, para no ter mais que estudar em casa.
      A colega que se sentava atrs de Cris deu-lhe uma batidinha no seu ombro e passou-lhe um bilhete. Era da Katie, e dizia: "Quer ler o meu trabalho? Tirei 10!!!"
      Cris virou-se na direo de Katie e, sorrindo, concordou. O papel correu de mo em mo at chegar a Cris, enquanto a professora escrevia no quadro.
      Em cima estava um enorme "10". A primeira linha de Katie era uma citao: "Porquinho aproximou-se de Puf. "
      - Puf? chamou ele em voz baixa. "
      - Sim, Porquinho? replicou Puf.
      "- Nada, disse Porquinho, pegando na pata do amigo. Eu s queria ter certeza de que voc estava a!"*
      * Extrado do livro The House a Pooh Comer (A casinha da esquina), de A. A. Milne. Usado com permisso.
      E ela continuava descrevendo a verdadeira amizade como uma situao em que algum est sempre presente para o outro, no importa o que acontea. Amigo  algum 
que no precisamos impressionar, porque sabemos que podemos ser autnticos ao lado dele, e essa pessoa ainda nos aceita. Ela citou at Provrbios 17.17: "Em todo 
tempo ama o amigo."
      Nas ltimas linhas do trabalho, Katie dizia: "Sinto que sou mais feliz do que muita gente, porque tenho essa espcie de amizade. Tenho um amigo que est presente 
a toda hora. Um amigo que me aceita como sou, mas me ama demais para deixar que eu continue assim. Sim, eu diria que sou abenoada porque tenho um verdadeiro amigo."
      Cris mordeu o lbio inferior, sentindo-se meio sem jeito e com sentimento de culpa. Ela no possua todas as qualidades que Katie citara como caractersticas 
de um verdadeiro amigo. Ela queria ser uma amiga melhor para a Katie. Devolveu a ela o trabalho na hora do almoo, dizendo-lhe:
      -  realmente bom o seu trabalho. Mas preciso dizer que me fez sentir culpada.
      - Por qu?
      - O jeito que voc descreveu seu amigo verdadeiro como quem sempre est presente e a aceita em toda situao... Achei uma declarao muito forte.
      - Achou forte demais? Eu achei que deixei at "fraca" demais, disse Katie, examinando o trabalho. At mudei a ltima linha antes de entregar. Inicialmente 
eu tinha escrito: "Tenho um verdadeiro amigo, e seu nome  Jesus Cristo." Mas a fiquei com medo de que ela abaixasse minha nota.
      Ah! Faz sentido. O Senhor est sempre presente, e todas as outras coisas que a Katie escreveu sobre ele so verdade tambm. Puxa! Eu fui arrogante mesmo em 
pensar que a Katie, veladamente, estivesse escrevendo sobre mim!
      - A propsito, voc podia me dar uma carona hoje? Meu irmo pegou meu carro emprestado de novo.
      - Tenho de ligar pra minha me e pedir, mas tenho certeza que ela vai dizer que sim. Preciso passar no correio. Recebi essa notificao estranha de um pacote 
mandado com a postagem a cobrar.
      - Provavelmente  a amostra grtis de protetor solar que ns pedimos no vero. Ainda no recebi a minha.
      -  possvel, explicou Cris com um tom de dvida.
      - O qu? Voc acha que pode ser do Rick ou coisa parecida?
      - No. Ah! Eu ainda no lhe contei. Seu irmo no lhe disse que liguei ontem  noite?
      - Aquele "esquecedor" de recado! No. No disse nada.
      - Onde voc estava? O Glen passou por l?
      - No; fui ao supermercado com minha me. O Glen nem ligou. Ou talvez tenha ligado, e meu irmo esqueceu de me dar o recado. Mas vou v-lo no dia do estudo 
bblico, quarta-feira, e ento vou ficar sabendo. Por que voc ligou?
      - Nada muito importante. S pra lhe dizer que o Rick e o Douglas estiveram em casa ontem.
      Katie parou de comer seu sanduche e esbugalhou os olhos.
      - Por que no me disse? E o que aconteceu? Ele notou a sua pulseira?
      Cris deu um relatrio detalhado da situao. Katie apresentou a sua avaliao.
      - Se quer saber o que penso, acho que o Rick ainda est machucado por voc ter terminado com ele. E na minha opinio isso foi bom para o rapaz. Estava na hora 
de algum lhe mostrar como a gente se sente quando se leva um fora.
      - No foi por isso que terminei com ele.
      - Voc terminou porque ele  um panaca, certo?
      - No, Katie, ele no  um panaca. Ele  simplesmente o Rick.
      - Mesma coisa.
      - No , no.  difcil explicar por que eu terminei com ele. Na poca, me liguei muito aos meus sentimentos, e eu sabia que estava fazendo a coisa certa. 
S posso explicar da seguinte maneira: o Rick no tinha uma dimenso espiritual, e eu sentia falta disso, porque o Ted  noventa por cento espiritual e dez por cento 
emocional. O Rick era noventa por vento emoes e no sei quanto de qualquer outra coisa. Mas ontem, quando o vi, parecia que ele estava mais espiritual. No era 
o mesmo cara. Acho que o Douglas tem tido uma boa influncia sobre ele.
      - timo!  verdade. Sei que no devemos julgar, mas o Rick parecia que estava sempre "brincando" de ser crente. No dava pra saber se ele era sincero mesmo, 
ou se tudo que dizia era apenas encenao, j que ele frequenta a igreja desde pequeno.
      - Quero crer que ele est se tornando sincero, disse Cris.  sobre isso que vou comear a orar por ele. Coloquei a Jennifer, Shannon e Tiffany na minha lista 
de orao. Talvez eu deva acrescentar o Rick tambm.
      - Voc devia estar orando  pelo Ted. Voc no teve notcia depois que mandou o carto?
      - No.
      - No fique assim, Cris.
      - Assim como?
      - Voc est com o jeito de quem diz: "O Ted se esqueceu de mim, e nunca mais vou v-lo na vida." Voc sabe que isso no  verdade.
      - s vezes  difcil saber o que  verdade, falou Cris, tentando lutar contra a tristeza e remexendo na pulseira. Acho que  por causa das redaes sobre amizade 
verdadeira e porque pensei nisso hoje. Creio que me sinto como seu "Porquinho". s vezes queria ter mais certeza da amizade do Puf. Sabe o que quero dizer?
      - Sim, sei exatamente. Mas Jesus  o nico que sempre est conosco, o tempo todo. Voc sabe disso.
      - Eu sei disso quanto ao Senhor, mas nunca sei o que pensar com relao ao Ted.
      - Se quiser saber a minha opinio... Cris sorriu e disse:
      - Voc sabe que eu sempre quero a sua opinio. Pelo menos quase sempre.
      Katie devolveu o sorriso e disse:
      - Bem, quer queira ou no, minha opinio sobre o Ted  que voc deve sempre relembrar o que sabe sobre ele e repeti-lo para si mesma. Assim no se confunde 
com essas incertezas.
      - O que quer dizer?
      - Como aqueles versculos que voc escreveu pra ele de Filipenses, dizendo que d graas a Deus por ele, e que  certo pensar assim porque voc o traz no corao. 
Ele disse que seria o seu amigo pra sempre, lembra? Isso ele prometeu.
      - Tem razo! Preciso lembrar de uma frase que citei no meu trabalho. Cris pegou sua redao e leu para Katie: "Minha riqueza so os meus amigos."
      - E, acrescentou Katie. E alguns amigos so tesouros peculiares. Eu diria que o Ted entra nessa categoria.
      A campanhia interrompeu as divagaes das duas garotas. Cris enfiou de novo o trabalho no caderno e suspirou:
      - Espero que voc esteja certa, Katie.
      - Claro que estou. Voc sabe que estou. Pelo menos a maioria das vezes. Cris sorriu.
      - Vejo voc depois da aula. Vou para o Espanhol.
      - Minha matria predileta, ultimamente. No esquea de ligar pra sua me, perguntando se pode me levar pra casa.
      O resto do dia passou depressa, e Cris encontrou-se com Katie no seu carro.
      - Minha me me disse que posso lev-la pra casa. Podemos passar primeiro no correio?
      - Voc  a motorista, disse Katie, deixando os livros no assoalho. Como voc consegue manter o carro to limpo?
      - Ordem da me. Ela tem fobia de carro sujo.
      - E uma coisa que ajuda tambm  que seu irmo ainda no tem idade pra sair com o seu carro.
      Na frente do correio, Cris estacionou e perguntou se Katie ia entrar com ela.
      - Est brincando? Estou to curiosa sobre esse pacote misterioso! Cad o aviso?
      - Aqui.
      Cris tirou-o da bolsa. Havia quatro pessoas na fila  frente delas. Da a pouco outras entraram atrs. Cris chegou ao guich, entregou o aviso e disse:
      -  um pacote com a postagem a cobrar. Aqui esto os cinquenta e sete centavos que faltam.
      - Um momento, disse o funcionrio. Ele foi at os fundos e voltou com um sorriso engraado na cara.
      - Voc  Cris Miller? indagou.
      - Sim.
      - Conhece algum chamado Fil?
      - Fil? No, respondeu e, virando-se para a Katie, acrescentou: Pelo menos acho que no.
      -  s curiosidade. Aqui est.
      Ele colocou um objeto grande, esverdeado, oval, sobre o balco. O endereo de Cris estava escrito com letras negras, grandes.
      -  todo seu.
      - O que  isso? Um kiwi gigante? indagou Katie.
      - No,  um coco do Hava, disse Cris.  assim que eles so, quando caem do p.
      No momento que disse "Hava", seus olhos se arregalaram. Ela e Katie se entreolharam e ambas abriram a boca ao mesmo tempo. As duas se afastaram depressa para 
dar lugar aos outros fregueses.
      - Vire do outro lado! O que est escrito no lugar do remetente?
      - Fil 1.7. O que quer dizer isso?
      - Filipenses. Fil  abreviatura de Filipenses. Entendeu? Ele est devolvendo-lhe a sua mensagem. No acredito!  incrvel! E as outras palavras, o que dizem? 
D pra ler?
      Cris colocou o coco sob a luz e leu: "Guardo-a... no... corao... tambm."
      - Aaaiii! gritaram as duas ao mesmo tempo e abraaram-se. De repente perceberam que as pessoas as observavam, e foram correndo para o estacionamento.
      - Eu no lhe disse?! Isso  to tpico do Ted! Quem mais pensaria em mandar um coco pelo correio? E mandou a sua mensagem em cdigo bblico! Incrvel!
      Cris olhou para o coco e em seguida para a amiga, empolgada. Seus olhos ficaram turvos. No sabia se as lgrimas eram de riso ou de choro, porque no momento 
no sabia se estava rindo ou chorando.
      - Agora, declarou Katie com ar confiante, isso  o que eu estava falando! Voc tem nas mos evidncias de que o Ted sempre ser seu verdadeiro amigo.
      - Ele  meu amigo de verdade, Katie, disse Cris, piscando para afastar as lgrimas e abraando o coco perto do corao. Com o outro brao, enlaou a Katie.
      - E voc  minha verdadeira amiga tambm.
      



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